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PhD Merit Award 2020: Entrevista a Adrià López-Baucells

11/11/2020. Entrevista por Marta Daniela Santos. Créditos das fotografias: Oriol Massana e Adrià López-Baucells.

Encerramos esta série de entrevistas com Adrià López-Baucells, colaborador do grupo Tropical and Mediterranean Biodiversity no cE3c, distinguido com o PhD Merit Award na edição de 2020 do Encontro Anual do cE3c (1-2 outubro, online) – uma distinção que pretende assinalar o mérito do trabalho realizado no último ano por investigadores que concluíram recentemente o seu doutoramento no centro.

Colômbia, Austrália, Quénia, Madagáscar, Brasil: são alguns dos países em que a sua investigação com morcegos já levou Adrià López-Baucells a desenvolver trabalho de campo. No seu doutoramento, que concluiu em 2018 e desenvolveu entre o cE3c e o Museu de Ciências Naturais de Granollers (Catalunha), Adrià López-Baucells estudou o efeito da fragmentação da floresta Amazónica sobre os morcegos tropicais, estudando-os do ponto de vista da bioacústica.

Atualmente, é investigador de pós-doutoramento no Museu de Ciências Naturais de Granollers e colaborador do cE3c. E alia à investigação a sua paixão pela fotografia de natureza, com que vai documentando o trabalho de campo e as espécies que observa. Mas nada melhor do que ser o próprio Adrià a contar o seu percurso e o que o fascina nesta área:

Quem já te conhece associa-te imediatamente à investigação com morcegos. Por que escolheste esta área?

Desde pequeno o que mais me fascinou do mundo natural foram os mundos desconhecidos: o mundo submarino, as grutas, a noite, animais invisíveis ao olho humano ou até os planetas que ainda estão por explorar… A literatura de Júlio Verne, Gerald Durrell, Stephen J. Gould, Stephen Hawking ou Isaac Asimov marcaram a minha visão do mundo, do ser humano e da natureza. Anos mais tarde, como conservacionista e ecologista, o que me fascinou foi perceber que ainda tinha espaço para contribuir com um pequeno grão de areia para o conhecimento do mundo natural desconhecido e dar um contributo real para a sua conservação.

Os morcegos cumpriam os todos requisitos do que eu procurava: imensamente desconhecidos, misteriosos, cheios de mitos e envolvidos em preconceitos e lendas populares, enfrentando ameaças gigantes de conservação em todos os continentes e com uma clara falta de reconhecimento por parte da comunidade. Nesse momento, por volta de 2005, tive a sorte de me cruzar com um pequeno grupo de investigação no Museu de Ciències Naturals de Granollers onde comecei a aprender sobre os morcegos e o difícil mundo da conservação e da ecologia aplicada. O envolvimento, fascinação e motivação constante e persistente dos meus mentores Carles Flaquer e Xavier Puig conseguiram reter-me nesse universo infinito da investigação dos morcegos durante os últimos 15 anos.  

©: Oriol Massana e Adrià López-Baucells.

Que problemas científicos estudaste no teu doutoramento, em colaboração com o cE3c?

O objetivo geral desta tese foi estudar os efeitos da fragmentação da floresta nas comunidades de morcegos insetívoros aéreos. O trabalho foi desenvolvido na área de implantação do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), uma experiência de manipulação do habitat de grande escala na Amazónia brasileira que criou um mosaico de floresta primária contínua e de fragmentos de floresta primária, incluídos numa matriz de vegetação secundária.

A tese foi baseada no maior conjunto de dados acústicos de morcegos da Amazónia, recolhidos durante três anos, o que gerou um total de 1,300,000 gravações analisadas. Quando chegámos lá pela primeira vez vimos que ainda faltava conhecer muito sobre os morcegos tropicais, em especial sobre os insetívoros e, finalmente, conseguimos publicar o primeiro guia de morcegos da Amazónia – digitalmente em 2016, em papel em 2018.

Quais as condições mais desafiantes que já viveste em trabalho de campo? Tens alguma história curiosa que queiras partilhar?

O trabalho de campo na Amazónia teve imensas condições desafiantes, assustadoras e fascinantes, o que tornou essa parte da investigação na maior experiência de campo que já vivi. Passámos quase três anos no meio da Amazónia em acampamentos pequenos com poucas condições, dormindo em redes ao lado do rio...

Em três anos de campo ao lado do meu colega de doutoramento Ricardo Rocha e muitos outros colaboradores acumulámos uma grande lista de histórias dignas para contar aos netos ao lado do fogo. Por exemplo: durante uma noite de amostragem habitual, de regresso ao acampamento depois de realizar um trabalho duro de campo, o nosso guia e colega foi atacado por um jaguar (onça pintada, como dizem no Brasil) e, embora ninguém tivesse ficado ferido, a experiência ficou gravada nas nossas memórias. Ou a alegria imensa do primeiro dia em que vi uma anaconda na floresta, com a luz de uma lanterna, nadando num pequeno lago. E muitas outras histórias semelhantes com cobras, tapires, pumas, etc. O facto de estar a trabalhar e a viver por longos períodos em zonas isoladas, sem sinal de telefone (obviamente sem internet), sem carro e sem serviços fez com que pela primeira vez me sentisse um pouco mais ligado à natureza ancestral, com os riscos habituais da vida selvagem e os desafios mais originais. Este tipo de vivências faz com que percebas a relação com a natureza de uma forma completamente diferente.

No fim, o desafio maior que ficou após as vivências na Amazónia não foi o que aconteceu durante o trabalho de campo, mas sim o desafio pessoal de dar um bom contributo e desenvolver uma boa estratégia para a conservação do magnífico mundo natural que tivemos a oportunidade de conhecer.

Ricardo Rocha e Adrià López-Baucells em trabalho de campo. ©: Oriol Massana.

Quais vão ser os próximos passos da tua investigação?

Após a defesa de doutoramento tive a sorte de poder entrar no grupo de investigação do Museu de Ciències Naturals de Granollers (a instituição onde comecei o meu percurso como conservacionista em 2005) como investigador de pós-doutoramento. Depois de quase dois anos no grupo, estou agora a liderar um grupo de investigação em ecologia e conservação especialmente focado na conservação dos quirópteros. O meu objetivo pessoal é estabelecer uma rede forte de investigadores e estudantes no Museu capazes de desenvolver projetos de investigação em ecologia aplicada que sejam também fortes o suficiente para trabalhar em ciência de uma maneira escrupulosamente ética, sincera e eficiente.

Nos últimos anos tenho-me apercebido de um grande distanciamento entre academia e naturalismo, que se torna muito evidente em casos de crises económicas, por falta de comunicação e por um sistema científico que nem sempre valoriza os resultados da investigação de uma forma plenamente honesta e que, às vezes, ignora a parte prática da ciência. Eu considero que formo parte da academia, e defendo sempre o valor imenso e insubstituível da sua investigação. Ao mesmo tempo valorizo muito o conhecimento e a necessidade do naturalismo como método para solucionar problemas de conservação a nível local. Um não poderia existir sem o outro.

Nestes tempos de crise na conservação da biodiversidade, uma relação colaborativa e construtiva entre academia e naturalismo é uma prioridade iminente. Por isso, no grupo de investigação que estou a coordenar trabalhamos em tópicos como os serviços de ecossistema que os morcegos proporcionam aos agricultores, o estudo da dieta das espécies, a proteção das grutas e abrigos subterrâneos, a modelação da distribuição das espécies, e num grande projeto de ciência cidadã. E desenvolvemos toda a investigação sempre num contexto de humildade e trabalho sincero e persistente.

Ficaria muito feliz de ver, após alguns anos, cientistas a sair do Museu com uma experiência tão boa ou melhor que a minha experiência de doutoramento na Amazónia e a vida no cE3c.

A fotografia de natureza tem sido uma paixão que tem acompanhado a tua investigação e que tem sido protagonista em artigos e capas de revistas e livros. Como surgiu este interesse pela fotografia?

A fotografia tem-me acompanhado há muito tempo, já desde pequeno, desde o início do meu interesse pela natureza. Tive a minha primeira câmara antes de entrar na universidade e usei-a até gastar os botões... gradualmente, à medida que conseguia financiamento, fui comprando material de melhor qualidade. Os meus primeiros passos na fotografia noturna e de alta velocidade foram ao lado do meu colega Oriol Massana, a quem agradeço muito os ensinamentos e a paciência comigo e com quem tivemos a excelente oportunidade de fotografar muito morcegos na Amazónia, também no contexto do meu projeto de doutoramento.

De facto, durante o percurso das nossas pesquisas vi que, além da minha paixão pela fotografia, a imagem tem um poder gigante para transmitir histórias, conhecimento e mensagens de conservação. O poder da mudança nem sempre reside nos resultados científicos, mas sim na nossa capacidade de comunicá-los. Decidi que tinha de tentar ligar sempre os meus resultados científicos ao uso intensivo da imagem. Até agora tenho tentado aproveitar todas as oportunidades para fotografar os objetivos dos projetos de investigação e o nosso trabalho de campo.

Tenho tido a sorte de ser financiado pela World Wide Fund for Nature juntamente com o meu colega Joan de la Malla para documentar as relações entre humanos e morcegos em Madagáscar através da fotografia, projeto que acabou em 2019. Muitos dos meus colegas são também amantes da fotografia, o que torna muito mais fácil e agradável o processo criativo coletivo. No meu caso, estou a aprender as técnicas fotográficas aos poucos e está a ser um processo muito agradável.

O que significa para ti receber este prémio?

Receber este prémio é um orgulho gigante. Para mim representa um reconhecimento do grupo inteiro com quem trabalhei durante os últimos anos, os meus orientadores Christoph Meyer e Jorge Palmeirim, o Ricardo Rocha e o Fabio Farneda, como colegas de doutoramento, o pessoal do Brasil e do PDBFF que nos ajudou no trabalho de campo e a lista imensa de colaboradores que tornaram esse projeto possível. O prémio é mesmo para todos e um reconhecimento do trabalho de grupo. Quero agradecer a todas as pessoas que deram o seu contributo para esse projeto e que, de uma maneira ou outra, acreditaram neste projeto. Sem dúvida que o voltaria a fazer e é uma experiência que recomendo a qualquer estudante que esteja a começar o seu doutoramento.  

Vários momentos de trabalho de campo de Adrià López-Baucells. ©: Oriol Massana.

Completa a frase: Para mim, fazer parte do cE3c significa...

... uma das melhores experiências da vida, uma oportunidade excelente que me brindou Portugal para me envolver na investigação científica, e uma família com quem gostaria de colaborar no futuro.

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