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Best Short Talk Award 2020: Entrevista a Joana Jesus

4/11/2020. Entrevista por Marta Daniela Santos.

Joana Jesus, do grupo Environmental Stress & Functional Ecology do cE3c, foi distinguida com o Best Short Talk Award, por votação dos participantes na 6ª edição do Encontro Anual do cE3c – que decorreu a 1 e 2 de outubro 2020, online – pela short talk (apresentação de oito minutos) intitulada When fire does not stop symbiosis: A. longifolia and its guests.

Joana Jesus é mestre em Microbiologia Aplicada, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sendo que no seu projeto estudou a diversidade bacteriana que existe dentro dos nódulos formados nas raízes da acácia (Acacia longifolia) e a influência do fogo no estabelecimento da simbiose nesta espécie. Está neste momento integrada no projeto R3forest, que estuda o uso de biomassa de espécies exóticas para o restauro após fogos.

No que consiste o trabalho que apresentaste no Encontro Anual?

Como espécie exótica e uma das mais agressivas invasoras, a Acacia longifolia tem sido estudada ao nível da sua ecologia e fisiologia. No entanto, como leguminosa, a diversidade da comunidade de bactérias presente nos nódulos – uma estrutura desenvolvida nas raízes com o objetivo de fixar azoto através da simbiose com bactérias - parece ser uma característica fundamental e facilitadora da sua adaptação e grande sucesso colonizador.

Assim, este estudo foi desenvolvido para descrever a comunidade bacteriana, colocando a hipótese de que além das comuns e já normalmente descritas bactérias fixadoras de azoto, podem coexistir bactérias não fixadoras. Além disso, pretendemos também estudar o papel do fogo nesta simbiose, uma vez que a Acácia é proveniente da Austrália, estando altamente adaptada ao fogo e, por isso, a sua influência na nodulação e na comunidade bacteriana que estabelece simbiose pós-fogo para ser determinante para a posterior colonização, num ambiente favorável sem competição de outras espécies vegetais.

À esquerda, nódulos nas raízes de acácia; à direita, nódulos em evidência. ©: Joana Jesus.

A acácia é uma das espécies invasoras mais agressivas. Quais os principais problemas que coloca a expansão desta espécie, e de que forma é que a sua evolução pode ser gerida?

A Acácia é descrita como uma engenheira de ecossistemas: porque é altamente eficiente a consumir recursos e água, reduz a biodiversidade das comunidades locais e tem um impacto significativo nos serviços e funcionamento dos ecossistemas. Além disso, compete por nutrientes, sendo capaz de fixar azoto através das relações de simbiose, alterando o ciclo dos mesmos impactando a flora nativa coexistente e por acumular bastantes quantidades de folhada, altera os regimes de fogos. Assim, a acácia tem um crescimento mais rápido, acabando por ocupar rapidamente os ecossistemas onde é introduzida. 

Atualmente, já estão a ser implementadas algumas estratégias para travar a sua expansão, como o descasque das árvores mais jovens e o arranque manual das germinantes, ou o controlo biológico com a introdução da vespa da acácia-de-espigas (Trichilogaster acaciaelongifoliae) que leva à formação de galhas impedindo a formação de novos ramos e flores. No entanto, apesar destes esforços, ainda não existe uma forma totalmente eficaz no controlo e na erradicação desta invasora.

Quais são os principais desafios que tens encontrado neste trabalho?

O maior desafio prende-se com a facilidade com que a Acácia estabelece simbiose com um microbioma tão diverso que parece incluir não só bactérias como fungos, e, por isso, descobrir a função de todos estes microrganismos parece ser o ponto mais crucial e que me desperta mais curiosidade neste trabalho.

Além disso, com este trabalho, surgiu a hipótese de que os nódulos podem ser mais do que uma forma de adquirir azoto, por isso, um maior conhecimento de toda esta interação pode alargar horizontes para tentar controlar de alguma maneira a expansão desta espécie, como por exemplo a manipulação de um conjunto de microrganismos que retarde o seu crescimento ao invés de o potenciar.

A atual pandemia COVID-19 tem afetado o teu trabalho de investigação? De que forma? E que estratégias tens encontrado para contornar?

Em grande parte sim, já que para avançar com o trabalho seria necessário aceder aos laboratórios, utilizar aparelhos do Centro, etc. etc. etc., o que acabou por atrasar a elaboração de alguns protocolos, procedimentos e também terminar algumas tarefas. Entretanto, já foi possível retomar o trabalho e, nos entretantos, procurei avançar mais na parte escrita e de pesquisa.

Várias fases do trabalho de laboratório e trabalho de campo. ©: Joana Jesus.

O que significa para ti receber este prémio?

Este prémio foi totalmente inesperado, uma vez que acabei de chegar ao cE3c, ainda estou a tentar integrar-me e inteirar-me de todos os grupos e investigações a decorrer. Terminei a minha tese de mestrado há cerca de um ano, por isso comunicar já as minhas primeiras hipóteses e as pessoas terem criado empatia é bastante positivo e motivador.

Completa a frase: Para mim, fazer parte do cE3c significa...

Fazer parte do cE3c é, acima de tudo, acreditar que é possível fazer ciência num ambiente multidisciplinar, onde pessoas com vários interesses pretendem alcançar um objetivo que é comum. É fazer parte de um grupo, neste caso do Environmental Stress & Functional Ecology, onde há partilha de conhecimentos, e que por englobar uma grande diversidade de temáticas alimenta a vontade de saber mais. 

O cE3c é um centro onde há espaço para a integração de várias áreas desde a microbiologia até à ecologia das invasoras e, por isso, fazer parte do cE3c significa que quero fazer parte de uma ciência que se comunica e que não é restrita, mas abrangente, dinâmica e integradora.

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