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De volta à Antártida para estudar os líquenes e desenvolver um indicador ecológico

21/01/2020. Texto de Maria Castanheira, editado por Marta Daniela Santos.

Na imagem de destaque: Paula Matos e Bernardo Rocha (cE3c-FCUL) em trabalho de campo na Antártida. ©: Xavier Fonseca.

Cerca de um ano depois da primeira visita à Antártida, viagem contada aqui, Paula Matos está de volta numa nova expedição para continuar o trabalho que lá começou. Vai acompanhada por Bernardo Rocha, ambos investigadores do cE3c (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), a propósito do projeto “Lichen Early Meter II”. O dia-a-dia da expedição pode ser acompanhado através do perfil Instagram do projeto, em @lichenearly.

Esta aventura começou no início de janeiro e irá prolongar-se até março deste ano. Chegar ao local onde se encontram de momento – a Base Antárctica Juan Carlos I na ilha de Livingston – foi o primeiro desafio para os investigadores. Para lá chegar são necessárias condições meteorológicas ideais, pelo que foram necessários dois dias de espera em Punta Arenas, no Chile, até o voo poder partir. Finalmente conseguiram chegar à ilha do Rei Jorge, de onde seguiram para a ilha de Livingston num barco oceanográfico da marinha espanhola e onde começaram a trabalhar.

Ilha de Livingston, Antártida. ©: Paula Matos.

O projeto consiste em desenvolver um indicador ecológico dos efeitos das alterações climáticas para as regiões polares, tendo como base a vegetação ali existente. Podemos pensar que apenas existem glaciares na Antártida, mas na verdade é possível encontrar zonas livres de gelo, onde se desenvolve vegetação – líquenes, briófitas e duas espécies de plantas superiores. Nas zonas mais ‘apetecíveis’, com mais água e menos frio, predominam as briófitas e plantas superiores. Os líquenes são os mais resistentes de entre os 3 grupos – conseguem também viver em condições mais extremas, com um clima mais frio e seco. Estes podem mesmo encontrar-se no meio dos glaciares, em zonas com afloramentos rochosos e que ficam descobertos no verão, como é o caso nesta altura.

Para desenvolver este indicador ecológico, é necessário amostrar e modelar a diversidade desta vegetação em gradientes climáticos espaciais. Os investigadores explicam que, devido às condições extremas que se fazem sentir na Antártida, as condições climáticas variam acentuadamente em distâncias espaciais muito curtas, seja em relação à linha de costa ou em altitude. “Nestes gradientes conseguimos observar uma mudança na vegetação completa, e é esta mudança que usamos para depois modelar e construir o indicador ecológico”, acrescenta Paula Matos.

Líquenes na ilha de Livingston, Antártida. ©: Paula Matos.

Apesar de ser verão no hemisfério sul, as temperaturas na região não são tão cativantes. “Aqui, o clima pode ser um desafio, pelo frio que nos faz passar quando estamos a amostrar e porque pode implicar ficarmos retidos na base”, refere o investigador Bernardo Rocha. Comparativamente às temperaturas entre os -3°C e 3°C que Paula Matos sentiu no ano passado, este ano está um pouco mais quente. “Este ano as temperaturas até agora têm estado mais altas, com mínimas por volta dos 3 °C e máximas a rondar os 6-7°C”, explica. Além do clima que pode ser um obstáculo para o trabalho de campo, os desníveis muito acentuados do terreno e as distâncias a percorrer também constituem um desafio para os investigadores.

Uma primeira visita à Antártida não foi suficiente para desenvolver todo o trabalho pensado inicialmente. A investigadora explica que nem sempre é possível obter todas as amostras necessárias, uma vez que estão sujeitos às condições do local, à eficácia dos métodos a aplicar, entre outros fatores. Por isso voltou à região mais extrema do planeta.

“A emoção da primeira vez é única. Mas continua a ser entusiasmante e emotivo. É uma sensação contínua de espanto com a paisagem que te rodeia a toda a hora. E tenho a certeza que quando formos acampar, primeira vez para ambos, vai ser uma nova experiência! Mais que não seja pelo desafio!”, conta Paula Matos.

Investigadores Bernardo Rocha e Paula Matos. ©: Paula Matos.

O objetivo agora é ampliar a amostragem realizada no ano passado, em termos de área e de número de locais amostrados, pois ficou limitada à ilha de Livingston. Da Base Antártica Juan Carlos I seguirão para a ilha de Nelson. Por fim, irão também à Península de Byers, a maior zona livre de gelo da ilha de Livingston, para ampliar o gradiente obtido no ano passado.

Serão também recolhidas amostras do solo, depois processadas em Portugal juntamente com as amostras de vegetação. Através da análise de diversos parâmetros relacionados com os ciclos de nutrientes, esta amostragem permitirá ter uma ideia do funcionamento do ecossistema, avaliando o seu estado atual e permitindo também estimar quais poderão ser os efeitos das alterações climáticas no ecossistema.

Esta nova expedição complementa ainda a já realizada, pelo facto de contemplar fotografias aéreas obtidas com drones. Estas serão comparadas com fotografias de menor escala obtidas pelos investigadores, calibrando os padrões obtidos em cada uma delas. Por fim, os padrões obtidos por drone serão calibrados com padrões obtidos por imagens de satélite. Isto permitirá aplicar o indicador ecológico a outros locais da Antártida, para onde existam imagens disponíveis.

Este projeto é financiado pelo Programa Polar Português (PROPOLAR), o qual apoia o desenvolvimento da ciência polar, permitindo aos investigadores portugueses o acesso ao Ártico e Antártida.

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