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Estudo revela que a recuperação da bio-crosta do solo devido à ausência de pastoreio pode ser benéfica para a regeneração do montado

2/07/2016. Texto por Marta Daniela Santos.

Um estudo agora publicado na revista Land Degradation & Development (*) avalia pela primeira vez o impacto do pastoreio na presença de musgos e líquenes do solo e para as funções que estes desempenham no ecossistema. Os resultados, obtidos por uma equipa de investigadores entre os quais se encontram as investigadoras cE3c Laura Concostrina-Zubiri e Cristina Branquinho, demonstram para uma região de montado que em terrenos em que o pastoreio já não é permitido há pelo menos 7 anos os musgos e líquenes aumentam 5 vezes. Este aumento tem consequências significativas para a retenção de água e temperatura do solo e, potencialmente, para os processos de regeneração do sobreiro, uma das principais preocupações na gestão dos montados.

Portugal é o país da Europa com maior proporção do seu território ocupado por montado. Trata-se de um dos ecossistemas mais estudados no nosso país, tendo também grande importância sócio-económica devido à produção de cortiça. Entre a enorme biodiversidade que os caracteriza, encontram-se muitas vezes musgos e líquenes – a chamada bio-crosta do solo – que desempenha funções fundamentais para o ecossistema, fixando carbono e azoto no solo, protegendo-o contra a erosão e aumentando a retenção de água, por exemplo.

No estudo agora publicado, os investigadores avaliaram pela primeira vez qual o impacto de existir ou não pastoreio para a capacidade da bio-crosta regular a temperatura e retenção de água do solo, numa região de montado. A região escolhida foi a Companhia das Lezírias, um dos locais de investigação de longo prazo da plataforma sócio-ecológica LTsEr Montado, a cerca de 50 km de Lisboa. Foram seleccionadas três áreas de terreno com diferentes condições de pastoreio: uma área em que os animais pastam actualmente, e outras duas em que o pastoreio já não é permitido há 7 e 17 anos, respectivamente.

A equipa de investigadores determinou que em terrenos em que o pastoreio já não é permitido há pelo menos 7 anos a bio-crosta aumenta 5 vezes, sobretudo em líquenes, chegando a cobrir 17% da superfície do solo. Este aumento tem impactos elevados no funcionamento do ecossistema, uma vez que os líquenes podem absorver e reter água por mais tempo nas suas estruturas do que os musgos. Além disso, os líquenes conseguem também reduzir significativamente a temperatura do solo: em 1ºC a 15cm de profundidade da superfície que cobrem o que pode influenciar o processo de germinação das sementes no solo.

Laura Concostrina-Zubiri, investigadora cE3c e primeira autora do artigo, refere: “As bio-crostas são um elemento muito importante na estrutura e funcionamento do montado devido à sua abundância e capacidade de alterar as condições de humidade e temperatura do solo, entre outras, e no momento de avaliar os serviços dos ecossistemas do montado devem ter um lugar tão importante como outros elementos do ecossistema”. Laura Concostrina-Zubiri refere ainda: “O pastoreio é uma atividade sócio-económica fundamental no montado. No entanto pode pôr em perigo a regeneração do sobreiro de forma indireta, devido aos seus efeitos prejudiciais na abundância e funções cumpridas pelas bio-crostas”.

Na imagem: Líquen Cladonia rangiformis. Fotografia da autoria de Laura Concostrina-Zubiri.

 

(*) Concostrina-Zubiri, L., Molla, I., Velizarova, E., Branquinho, C. (2016), Grazing or not grazing: implications for ecosystem services provided by biocrusts in Mediterranean cork-oak woodlands, Land Degradation & Development.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ldr.2573/abstract 


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