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Vegetação ribeirinha e olivais tradicionais contribuem para o aumento da biodiversidade em montados de sobro


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24/03/2016. Texto por Marta Daniela Santos.

Investigadores da Universidade de Lisboa, entre os quais vários membros do cE3c, concluem num estudo agora publicado na revista Journal for Nature Conservation que a presença de vegetação ribeirinha e pequenos olivais tradicionais contribui para o aumento da biodiversidade de aves em montados de sobro.

Os montados são sistemas agro-silvo-pastoris dominados por sobreiros (Quercus suber) ou azinheiras (Quercus rotundifolia) que ocupam uma grande área no Mediterrâneo Ocidental, sendo amplamente reconhecidos pelos elevados níveis de biodiversidade que suportam. Em Portugal, os montados ocupam uma vasta área, sobretudo no Sul do país, e representam um bem valioso pelo seu elevado valor económico (nos montados de sobro muito associado à exploração da cortiça) e de conservação (graças ao grande número de animais e plantas que albergam).

No entanto, estes sistemas têm vindo a sofrer pressões que levam ao desaparecimento de elementos outrora comuns nestas paisagens, o que pode ter um impacto negativo na biodiversidade. O abandono rural, por exemplo, leva à degradação dos olivais tradicionais que muitas vezes ocorrem associados a pequenas explorações agrícolas. Por outro lado, a sobre-exploração de alguns recursos leva à destruição de habitats como galerias ripícolas, ou seja, corredores formados por vegetação ribeirinha ao longo das linhas de água.

A investigação agora publicada foi realizada na Serra de Grândola. O principal objetivo foi avaliar o impacto na biodiversidade da perda de habitats comuns em montados de sobro, usando as aves como indicador. Além disso, foram usados cenários simulados em computador para testar se a recuperação destes habitats pode ser uma estratégia para o aumento da biodiversidade dos montados. Para isso, às atuais paisagens da região foram acrescentadas áreas hipotéticas de pequenos olivais e de vegetação ribeirinha nos locais com melhores características para cada um destes tipos de vegetação. Estes cenários virtuais foram depois utilizados para avaliar a evolução da população de aves.

“Os resultados deste estudo permitem-nos concluir que pequenas medidas de gestão, como o restauro das galerias ripícolas, podem ter efeitos positivos na comunidade de aves dos montados de sobro, nomeadamente para algumas espécies hoje em dia menos abundantes, sem pôr em causa o essencial retorno económico deste sistema” afirma Ana Leal, investigadora do cE3c e do Centro de Ecologia Aplicada Prof. Baeta Neves (CEABN/InBIO).

Conclui-se assim que a recuperação destes habitats, que constituem importantes áreas de nidificação e fontes de alimento para várias espécies de aves, pode contribuir de forma significativa para a manutenção e aumento da biodiversidade dos montados. Este trabalho pretende ainda ser um contributo para a valorização e gestão destes habitats que enfrentam atualmente problemas que vão desde a reduzida regeneração natural e aumento da mortalidade de árvores adultas, até à potencial competição da cortiça com materiais sintéticos.

Leal, A.I., Rainho, A., Martins, R.C., Granadeiro, J.P. & Palmeirim, J.M. (2016) Modelling future scenarios to improve woodland landscapes for birds in the Mediterranean., Journal for Nature Conservation30, 103-112. http://ce3c.ciencias.ulisboa.pt/research/publications/ver.php?id=334 

Fotografias: © Ana Leal


Tags: CE

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