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Pequenos felinos selvagens não se encontram bem protegidos no subcontinente Indiano

20/11/2020. Texto adaptado por Marta Daniela Santos do comunicado de imprensa oficial emitido pela Universidade de Uppsala (Suécia). 

Na foto: Gato-leopardo em florestas protegidas da Índia. Segundo os novos resultados, apenas 8% de habitat adequado para esta espécie está coberto por áreas protegidas. A espécie tem também maior probabilidade de perder habitat adequado com as mudanças climáticas em curso, em comparação com as outras espécies de pequenos felinos selvagens estudadas.©: André P. Silva, Surabhi Nadig e Navya R.

O subcontinente Indiano é um bastião global para os felinos selvagens. Um novo estudo mostra que apenas 6 a 11% da área onde três espécies raras de gatos selvagens têm o seu habitat se encontra protegida. A falta de conhecimento sobre estas espécies tem sido um obstáculo para o desenvolvimento de medidas de conservação mais eficazes.

Mais de um terço de todas as espécies de felinos do mundo habitam o subcontinente indiano. No entanto, as várias Áreas Protegidas no país não cobrem todos os habitats destas espécies.

No estudo agora publicado, os autores avaliaram os requisitos específicos de habitat de três espécies de pequenos felinos do género Prionailurus, próximas do ponto de vista evolutivo: o gato-ferrugem (P. rubiginosus), que só se encontra nesta região e se desenvolve melhor em florestas de folhas largas; o gato-leopardo (P. bengalensis), que tem sido observado sobretudo em áreas de floresta tropical e subtropical; e o gato-pescador (P. viverrinus), uma espécie associada principalmente a pântanos, mangais e áreas costeiras.

“Algumas destas espécies, como o gato-pescador, são muito raras e provavelmente precisarão de proteção para sobreviver a longo prazo. Os nossos resultados mostram que apenas uma percentagem muito pequena do habitat mais adequado a estas espécies – 6 a 11% - se encontra protegida, o que constitui um alerta de que a rede de áreas protegidas no subcontinente Indiano pode precisar de ser reavaliada. Outras espécies como o gato-ferrugem só existem nesta região, por isso é fundamental não correr o risco de perder estas populações”, explica André Silva, primeiro autor deste estudo, investigador de doutoramento no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e na Universidade de Uppsala (Suécia).

Utilizando coordenadas geográficas de locais onde as espécies têm sido observadas ao longo dos últimos anos e dados recolhidos por estudos de foto-armadilhagem mais recentes foi possível desenvolver modelos de nicho ecológico para identificar zonas com maior adequabilidade de habitat para cada espécie.  Estes modelos permitem também ter um maior conhecimento sobre os fatores ecológicos, como por exemplo clima, cobertura e uso do solo, que limitam ou favorecem a ocorrência das espécies, o que é crítico para futuras ações de conservação. Em particular, o modelo de adequação de habitat desenvolvido para o gato-ferrugem é o primeiro ao nível do Subcontinente Indiano; esta espécie é um dos gatos selvagens mais pequenos do mundo, para o qual as estimativas da sua potencial ocorrência eram até agora baseadas apenas em mapas com baixa resolução.

Sob os atuais cenários de alterações climáticas, a adequação dos habitats para as espécies irá mudar. Por exemplo, enquanto as florestas no nordeste da Índia (na foto) manterão a adequabilidade climática para o gato-leopardo, as florestas nos Gates orientais e ocidentais tenderão a perder a adequabilidade climática para esta espécie. ©: André P. Silva.

Os investigadores verificaram também que as ameaças mais graves variam entre as espécies avaliadas no estudo: “Enquanto que o gato-leopardo parece ser principalmente influenciado pelas atuais alterações climáticas, a distribuição geográfica de gato-ferrugem é limitada pela forma como a paisagem é utilizada – em particular, pela agricultura intensiva. Por outro lado, o gato-pescador parece ser o menos coberto por áreas protegidas. Assim, tornam-se necessárias ações de conservação adaptadas a cada espécie. E cada uma delas provavelmente responderá de forma diferente às intensas mudanças globais em curso no Subcontinente Indiano”, acrescenta André Silva.

Gatos pequenos, tímidos e raros são os que necessitam de maior proteção. Os resultados deste estudo mostram que as espécies estudadas, mesmo que proximamente relacionadas, tendem a responder de forma diferente às mudanças ambientais, o que sugere que a implementação futura de áreas protegidas precisará de cobrir uma extensão maior e uma variedade mais ampla de habitats para aumentar a cobertura dos habitats preferenciais destas espécies: “É crucial aumentar a área de habitat adequado protegido para estas espécies numa região que é um reduto global para gatos selvagens”, conclui Carlos Fernandes, co-autor do estudo, investigador do cE3c (Ciências ULisboa).

Este estudo envolveu também a participação de Shomita Mukherjee do Centro Sálim Ali para Ornitologia e História Natural (Índia), Uma Ramakrishnan do Centro Nacional da Índia para Ciências Biológicas e Mats Björklund da Universidade de Uppsala (Suécia).

Referência do artigo:

Silva, A.P., Mukherjee, S., Ramakrishnan, U. et al. Closely related species show species-specific environmental responses and different spatial conservation needs: Prionailurus cats in the Indian subcontinent. Sci Rep 10, 18705 (2020). https://doi.org/10.1038/s41598-020-74684-8

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