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Modelos de gestão e conservação da vida selvagem na África do Sul não protegem os carnívoros de forma igual

27/08/2020. Texto adaptado por Marta Daniela Santos a partir do comunicado de imprensa da Universidade de Massachusetts Amherst (EUA). Na imagem: Mangusto-listrado (Mungus mungus), pequenos carnívoros detetados numa das imagens de armadilhagem fotográfica obtidas no âmbito deste estudo. ©: Gonçalo Curveira-Santos.

Um estudo agora publicado explora o papel de áreas protegidas e a tendência atual de maior dependência de fazendas e reservas privadas na conservação de carnívoros selvagens na África do Sul. O trabalho revela que a resposta de espécies tradicionalmente ignoradas nos esforços de gestão e investigação é desigual ao longo do “mosaico” de medidas de proteção resultante, tornando complexo o desenvolvimento de planos de conservação eficazes.

Na África do Sul, a conversão de áreas dedicadas à agricultura e pecuária para atividades como o ecoturismo e a caça tem um papel importante na conservação da vida selvagem, como complemento às áreas protegidas tradicionais. Nestas paisagens multi-uso, grandes e carismáticos predadores africanos, como os leões ou as chitas, são parte central nas intervenções de gestão e conservação. No entanto, sabemos ainda pouco sobre como a grande diversidade de outros carnívoros, que se movem livremente pela paisagem, responde quando deparados com a diversidade de modelos e medidas de conservação.

Uma equipa internacional de investigadores usou uma larga rede de armadilhas fotográficas – câmaras ativadas por movimento e calor que fotografam de forma automática os animais quando passam – para estudar a ocupação de carnívoros em liberdade em diferentes habitats em KwaZulu-Natal, no nordeste da África do Sul. Os investigadores compararam os dados obtidos para áreas com diferentes níveis de medidas de conservação – desde uma área formalmente protegida (uMkhuze Game Reserve, parte do iSimangaliso Wetland Park, Património Mundial da UNESCO), a reservas privadas (Mun-ya-wana Private Game Reserve), fazendas de caça e comunidades tribais Zulu, em que a perturbação humana é maior.

Seis das 13 espécies de grandes, médios e pequenos carnívoros alvo deste estudo, entre as mais de 7000 fotografias obtidas através de armadilhagem fotográfica. ©: Gonçalo Curveira-Santos.

Os resultados, agora publicados na revista científica Journal of Applied Ecology, revelam que a diversidade de espécies identificadas era semelhante na área formalmente protegida, na reservas privadas e fazendas de caça, e significativamente menor nas áreas com aldeias. No entanto, a taxa de ocupação destas espécies, representativa da sua abundância relativa, era significativamente maior na área formalmente protegida do que nas de gestão privada.

“Estes resultados indicam que as áreas protegidas formais e antigas podem desempenhar um papel fundamental que não pode ser replicado facilmente, seja pela sua dimensão temporal ou prioridades de gestão. Especialmente para espécies carnívoros que não são geridas de forma ativa e que, não sendo parte formal dos planos de reintrodução e recuperação de predadores, parecem responder de forma diferente a diferentes abordagens de gestão do território”, explica Gonçalo Curveira-Santos, primeiro autor do estudo, investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O investigador Gonçalo Curveira-Santos (cE3c-FCUL) instala uma das 294 armadilhas fotográficas – câmaras ativadas pelo movimento que fotografam de forma automática os animais quando passam – em KwaZulu-Natal, no nordeste da África do Sul. ©: Michael Langley.

Com a ajuda de guarda-parques e funcionários das reservas, os investigadores instalaram 294 câmaras fotográficas, que geraram mais de 7000 imagens de 13 carnívoros em liberdade: desde pequenos mangustos e chacais a grandes leopardos e hienas. Com base nos dados recolhidos, desenvolveram um modelo para a ocupação da região, de acordo com os vários níveis de medidas de conservação.

“Os nossos resultados apoiam a noção de que as reservas privadas e as fazendas de caça desempenham um papel complementar às áreas formalmente protegidas, mas também que é importante reconhecer que elas não desempenham o mesmo papel e podem não ser uma panaceia de conservação. Para os governos é atraente transferir a conservação para o setor privado, mas para avaliar os benefícios de conservação de o fazer são necessários alguns parâmetros de referência, e as áreas protegidas sob proteção formal de longo prazo são referências importantes para um ‘estado natural’”, frisa Gonçalo Curveira-Santos.

Leopardo (Panthera pardus) numa das imagens de armadilhagem fotográfica obtidas no âmbito deste estudo. ©: Gonçalo Curveira-Santos.

Os investigadores afirmam que este trabalho contribui para uma visão mais holística da vida selvagem e para o desenvolvimento de planos de conservação mais eficazes, sendo necessária mais investigação. “Precisamos de mais investigação para perceber que fatores podem estar a impedir a recuperação das espécies aos níveis observados na área formalmente protegida e, mais importante, quais são as consequências ecológicas destes padrões”, alerta Chris Sutherland, co-autor do artigo, investigador da Universidade de Massachusetts Amherst (EUA). Gonçalo Curveira-Santos acrescenta: “Entretanto, garantir a manutenção a longo prazo de áreas protegidas é provavelmente a nossa aposta mais segura”.

Este trabalho foi desenvolvido em colaboração com investigadores da Universidade de Venda (África do Sul) e do Instituto Africano de Ecologia de Conservação, instituição que financiou o trabalho a par com a Fundação Nacional de Investigação da África do Sul, a National Geographic Society e o Wild Tomorrow Fund.

Referência do artigo:

Curveira-Santos G., Sutherland C., Santos-Reis M., Swanepoel L.H., Responses of carnivore assemblages to decentralized conservation approaches in a South African landscape (2020), Journal of Applied Ecologyhttps://doi.org/10.1111/1365-2664.13726 

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