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Foram registados pela primeira vez sons produzidos por peixes no monte submarino Condor, nos Açores

24/08/2020. Texto de Rita Carriço, editado por Marta Daniela Santos. Imagem: Monte submarino Condor. ©: Marclarose / CC BY-SA (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0).

Foram registados pela primeira vez sons produzidos por peixes a grande profundidade, no monte submarino Condor, nos Açores. O estudo agora publicado descreve a ocorrência de sons de peixes ao longo de três anos, a 190 metros de profundidade.

Muitos peixes produzem sons para comunicar, principalmente durante a época de reprodução. Embora se pense que muitas espécies que vivem em águas mais profundas sejam vocais, ainda existem muito poucos registos de sons de peixes a grandes profundidades.

No estudo agora publicado, investigadores da Universidade dos Açores, da Universidade de Lisboa e do MARE-ISPA analisaram registos acústicos obtidos em 2008, 2010 e 2012 no monte submarino Condor, localizado a cerca de 17km a sudoeste da ilha do Faial, nos Açores. Os registos acústicos foram detetados a cerca de 190 metros de profundidade, tratando-se do primeiro estudo na Europa a detetar sons de peixes a esta profundidade. Os sons foram identificados como pertencendo a peixes através da comparação com registos de outras espécies descritas na literatura.

O monte submarino Condor, onde foram obtidos os registos acústicos, está localizado a cerca de 17 km a sudoeste da ilha do Faial, no arquipélago dos Açores.

“Os sons que detetámos exibem padrões temporais de abundância e diversidade muito interessantes. Há uma maior incidência de sons no período noturno e crepuscular, por exemplo, em que a comunicação visual está mais limitada”, explica Rita Carriço, primeira autora do estudo, investigadora do Centro de Investigação em Ciências do Mar – Okeanos e Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – MARE. Rita Carriço está a desenvolver este trabalho no âmbito do seu doutoramento, sob orientação de Maria Clara Amorim, investigadora da FCUL e MARE-ISPA, Paulo Fonseca, investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c e Gui Menezes, investigador do Centro de Investigação em Ciências do Mar – Okeanos e Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia, co-autores do estudo.

Algumas das espécies vocais que existem nos Açores e que podem ser encontradas a esta profundidade incluem o Mero (E. marginatus), peixe piloto (N. ductor), peixe galo (Z. faber), peixe lua (M. mola), Ruivo (C. cuculus), Lírio (S. dumerilli), Prombeta (T. ovatus) e Anchova (P. saltatrix)”.

Os investigadores validaram a informação acústica comparando os padrões anuais que registaram de abundância e diversidade de sons com os observados através de amostragem pelas pescas para um período temporal similar. A abundância e diversidade de espécies de peixes capturadas na mesma zona com palangre – um tipo de pesca à linha em que da linha principal dependem outras linhas secundárias mais curtas, que terminam cada uma num anzol – apresentou tendências semelhantes às observações acústicas para os anos amostrados.

O monte submarino Condor foi classificado como área protegida em 2010, pelo que os registos acústicos obtidos permitem avaliar os efeitos de proteção inicial desta classificação. Ao contrário do que os investigadores esperavam, os resultados indicam uma diminuição na abundância e diversidade de sons de 2008 a 2012.

“A diminuição dos registos acústicos, assim como das espécies capturadas após o estabelecimento do estatuto de proteção do Condor, poderá dever-se possivelmente aos impactos negativos da sobrepesca e poluição de anos anteriores, tendo em conta que o ecossistema irá precisar de vários anos para recuperar”, explica Rita Carriço.

Os resultados reforçam a importância deste método de monitorização acústica para avaliar e monitorizar a biodiversidade em águas profundas e de difícil acesso. “Nesse sentido, seria bastante útil identificar quais as espécies que produzem os sons registados e novas espécies produtoras de sons, comparar a sua distribuição geográfica e identificar os principais parâmetros que poderão influenciar a sua ocorrência, tirando partido de novas ferramentas como a utilização de diversos índices acústicos e de sistemas de reconhecimento automático para caracterizar as paisagens acústicas”, conclui Manuel Vieira, co-autor neste estudo e aluno de doutoramento do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c da Universidade de Lisboa.

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