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Estudo deteta a influência do clima e altitude na circulação do agente da paratuberculose em carnívoros silvestres do Mediterrâneo

28/01/2020. Texto de Marta Daniela Santos e Fabrício Mota, editado por Mónica Cunha. Na imagem: sacarrabos (Herpestes ichneumon). ©: Artemy Voikhansky, disponível aqui.

Um estudo realizado em Portugal, agora publicado na revista Scientific Reports*, do grupo editorial Springer Nature, demonstra que carnívoros silvestres do Mediterrâneo, tais como a fuinha, a geneta, a raposa e o sacarrabos, estão expostos ao agente da paratuberculose, podendo estar envolvidos na sua disseminação e manutenção no meio natural e constituindo risco potencial de contaminação para outras espécies.

A paratuberculose, ou Doença de Johne, é uma infeção crónica que afeta, sobretudo, ruminantes de produção, sendo caraterizada por diminuições na produção, emaciação e perdas de peso acentuadas, podendo culminar na morte dos animais infetados. É causada pela bactéria Mycobacterium avium subsp. paratuberculosis (MAP), uma micobactéria muito fastidiosa e de difícil isolamento por cultura. A infeção é predominantemente adquirida através da ingestão de leite, pastagens, e outros alimentos contaminados. Apesar de existirem registos esporádicos da ocorrência de paratuberculose em animais não-ruminantes, ainda pouco se sabe sobre os fatores que predispõem para a infeção em populações silvestres.

No estudo agora publicado na revista Scientific Reports, os investigadores estudaram a influência de diversos fatores bióticos e abióticos na exposição de carnívoros silvestres de Portugal Continental à paratuberculose, tendo encontrado evidências moleculares da circulação do agente etiológico em espécies como o sacarrabos, a raposa, a fuinha e a geneta. As maiores proporções de animais potencialmente infetados foram registadas em raposa (10%) e sacarrabos (6%).

“Este trabalho detetou pela primeira vez a presença deste agente patogénico em geneta e confirmou a sua circulação em várias outras espécies de carnívoros silvestres, com recurso a técnicas de biologia molecular. Não foram, no entanto, detetadas lesões nos animais analisados, o que, em paralelo com a deteção da bactéria nas fezes, sugere que estas espécies possam ser portadores assintomáticos, com um papel na disseminação deste agente no meio natural”, explica Mónica Cunha, primeira autora deste estudo, investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV, IP).

Os investigadores analisaram amostras de fezes e do baço de mais de 200 carnívoros silvestres doadas para fins científicos, com origem em controlo de densidade de predadores ou atropelamentos, e provenientes de treze distritos do país. Analisaram quais, entre estes animais, eram portadores de MAP, tendo detetado a sua presença em carnívoros de oito distritos, e testaram a influência da disponibilidade de recursos alimentares, distúrbios de origem antropogénica, história de vida, clima, orografia e densidade de explorações de bovinos na probabilidade de deteção do agente da paratuberculose em sacarrabos.

“Especificamente para esta espécie, verificámos que a probabilidade de deteção de MAP era maior em animais provenientes de áreas com temperatura mais estável e com menor precipitação anual, mas também naquelas localizadas a maiores altitudes”, acrescenta a investigadora.

Este trabalho abre precedentes para investigações mais profundas no tema, visto que ainda não é conhecida em detalhe a relação entre MAP e os seus hospedeiros carnívoros. Uma vez que o estudo detetou uma influência do clima e altitude na probabilidade de infeção, os investigadores salientam a necessidade de que, em estudos futuros, se avalie de que forma as alterações climáticas podem afetar a circulação de agentes patogénicos ou modificar esta relação e quais os riscos epidemiológicos associados a estas mudanças.

Este estudo foi desenvolvido por investigadores do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV, IP), do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro.

(*) Cunha, M.V., Rosalino, L.M., Leão, C. et al. Ecological drivers of Mycobacterium avium subsp. paratuberculosis detection in mongoose (Herpestes ichneumon) using IS900 as proxy. Sci Rep 10, 860 (2020). https://doi.org/10.1038/s41598-020-57679-3

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