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Como os espaços verdes podem reduzir o efeito da ilha de calor urbano

19/06/2020. Texto de Marta Daniela Santos. Na imagem: Parque Comandante Júlio Ferraz (Almada), um dos parques urbanos estudados neste trabalho.

Uma equipa internacional de investigadores avaliou como os parques verdes podem arrefecer as cidades reduzindo o efeito das ilhas de calor urbano, tendo desenvolvido modelos de previsão com elevada resolução espacial, que permitem perceber quais os fatores que influenciam o microclima dos locais de estudo. O trabalho, desenvolvido em colaboração com a Câmara Municipal de Almada e agora publicado na revista Science of the Total Environment, AQUI, pode ajudar outros municípios e decisores políticos a planear e gerir as áreas urbanas de forma mais eficaz.

Nas cidades, os espaços verdes são ilhas verdes por entre estradas e edifícios. Esta geometria, aliada ao facto dos materiais artificiais absorverem muito mais energia do sol do que a vegetação, faz com que as áreas urbanas sejam mais quentes e secas que as suas áreas rurais circundantes – aquilo a que se chama o efeito ilha de calor urbano. Este efeito agrava os impactos das ondas de calor na saúde humana, um efeito que deverá aumentar devido às alterações climáticas.

Para compreender em detalhe de que forma os parques urbanos podem reduzir este efeito, os investigadores mediram a temperatura e a humidade relativa em vários espaços verdes e urbanos do centro de Almada, durante o inverno e o verão.

“Os nossos resultados mostram que a composição dos parques urbanos é um fator essencial para reduzir o efeito das ilhas de calor: no nosso estudo, o parque urbano com maior densidade de árvores, apesar de ter menores dimensões, mostrou reduzir a temperatura em média entre 1ºC a 3ºC e aumentar a humidade relativa entre 2% a 8% no verão”, explica Filipa Grilo, primeira autora do artigo, investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Para além de melhorarem o microclima na zona do próprio parque, os efeitos do parque estendem-se para além deste, para as zonas urbanas circundantes. De facto, os resultados mostraram que a área da copa das árvores influencia a temperatura e a humidade relativas na área circundante, a uma distância de até 60 metros. Já arbustos têm uma influência na área circundante mais reduzida, a uma distância de até 10 metros. Esta influência das árvores é um importante serviço dos ecossistemas, e permite reduzir os impactos da ilha de calor urbano.

Parque Municipal da Juventude (Almada), um dos parques urbanos estudados neste trabalho.

Para este estudo, os investigadores selecionaram dois pares de área verde e urbana adjacentes no centro de Almada, com diferentes características: o parque urbano Comandante Júlio Ferraz, adjacente ao largo S. João Batista; e o parque Municipal da Juventude, adjacente ao Largo do Tribunal. Mediram a temperatura e humidade relativa nestes locais através de sensores microclimáticos, que permitiam determinar médias horárias, durante o verão (agosto a outubro de 2017) e o inverno (dezembro de 2017 a março de 2018). De seguida, os dados recolhidos permitiram desenvolver mapas de previsão com elevada resolução espacial da temperatura e humidade relativa média para ambas as estações.

“Estes mapas com elevada resolução espacial permitem informar de forma mais detalhada decisores políticos, aplicando a mesma metodologia a outros municípios. Torna-se possível planear o tipo de vegetação nas cidades assegurando uma maior relação custo-benefício e aumentando o arrefecimento nos meses de verão e considerando o espaço circundante”, acrescenta Filipa Grilo.

Este estudo resultou da colaboração de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do Departamento de Ambiente, Clima, Energia e Mobilidade da Câmara Municipal de Almada, da Universidade de Estocolmo (Suécia), do Urban Systems Lab, New School of New York, Nova Iorque (EUA).

Referência do artigo:

Grilo, F., Pinho, P., Aleixo, C., Catita, C., Silva, P. et.al. 2020. Using green to cool the grey: Modelling the cooling effect of green spaces with a high spatial resolution. Science of The Total Environment Volume 724, 1 July 2020, 138182, https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2020.138182

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