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Pequenas mochilas de localização GPS permitem estudar a vida dos morcegos do deserto

19/08/2019. Texto adaptado por Marta Daniela Santos do comunicado de imprensa internacional. Na imagem: morcego da espécie Lavia frons, por Adrià López-Baucells.

Um novo estudo, agora publicado na revista Movement Ecology (*), permite compreender melhor as estratégias de adaptação às mudanças periódicas do clima dos morcegos do deserto, no Quénia. A colocação nestes animais de pequenas “mochilas” de localização GPS permitiu pela primeira vez determinar que durante a época seca os morcegos precisam de voar durante mais tempo, e até mais longe, para satisfazer as suas necessidades de alimentação – o que poderá constituir motivo de preocupação face ao impacto das alterações climáticas neste ecossistema.

Os mais recentes avanços na tecnologia de monitorização da vida selvagem têm revolucionado o estudo do comportamento animal. No entanto, monitorizar pequenos animais voadores – como os morcegos do deserto – continuava a representar um desafio. Agora, uma nova geração de localizadores GPS em miniatura, no formato de pequenas “mochilas” ultraleves, está a permitir obter novos conhecimentos sobre o comportamento destes mamíferos.

No estudo agora publicado, os investigadores utilizaram localizadores GPS com 1 grama para reconstruir os movimentos de morcegos da espécie Lavia frons, que ocorre na África equatorial, e um dos poucos morcegos do deserto grande o suficiente para poder transportar esta nova tecnologia. O estudo foi realizado no Parque Nacional de Sibiloi, no norte do Quénia, ao longo das margens do Lago Turkana.

Lago Turkana (Quénia). Fotografia de Adrià López-Baucells.

“Os nossos resultados demonstram que durante a época seca os morcegos têm um período de atividade mais prolongado, voando durante mais tempo e até mais longe, potencialmente para compensar a escassez de recursos alimentares”, explica Ricardo Rocha, investigador da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e colaborador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, e um dos autores do estudo.

testeOs investigadores obtiveram dados para 22 morcegos: 13 durante a época chuvosa, entre abril e maio de 2017; e 9 durante a época seca, entre janeiro e fevereiro de 2018. Monitorizaram os animais durante uma semana, registando a sua localização a cada 30 a 60 minutos todas as noites. “Com menos chuva há menos vegetação no deserto, o que significa que existem menos insetos – logo, menos recursos para os morcegos -, o que pode estar na origem do seu período de atividade mais prolongado durante a época seca”, conta Ricardo Rocha.

Os morcegos constituem cerca de um quinto de todas as espécies de mamíferos, existindo mais de 150 espécies de morcegos nos desertos. A grande variedade de morfologia e comportamento de utilização do habitat que exibem torna-os num bom grupo indicador para avaliar como as espécies reagem às alterações nos seus habitats. No entanto, à medida que os desertos se tornam mais quentes, as espécies que neles habitam precisam de se adaptar a condições ainda mais severas, o que representa um alerta para o impacto das alterações climáticas nestas espécies.

(Fotografia à esquerda: morcego da espécie Lavia frons; fotografia de Adrià López-Baucells)

“Os morcegos estão entre os mamíferos do deserto mais bem-sucedidos.  No entanto, não só os nossos resultados demonstram que eles têm de lutar para encontrar recursos suficientes nos períodos mais secos do ano, como este esforço poderá ser ainda maior num futuro próximo. As alterações climáticas estão associadas a condições que são mais típicas da época seca – como menos precipitação e temperaturas mais elevadas -, pelo que será expectável que os morcegos tenham de replicar as adaptações comportamentais que usam durante a época seca, para se adaptar a futuras condições do seu habitat quando ainda mais afetado pelo aumento da temperatura do planeta”, alerta Ricardo Rocha.

Da equipa de investigadores fazem parte Irene Conenna e Mar Cabeza, da Universidade de Helsínquia (Finlândia); Adrià López-Baucells, do Museu de Ciências Naturais de Granollers, na Catalunha, e Ricardo Rocha, investigador da Universidade de Cambridge (Reino Unido) – e ambos colaboradores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c; e Simon Ripperger, do Leibniz Institute for Evolution and Biodiversity Science (Alemanha). 

 

 (*) Conenna, I., López-Baucells, A., Rocha, R., Ripperger, S. & Cabeza M., Space use and movement seasonality of a desert-dwelling bat revealed by miniature GPS loggers. Movement Ecology DOI: 10.1186/s40462-019-0170-8

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