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Agir localmente, pensar globalmente: uma horta comunitária no campus é crucial para prestar serviços de ecossistema à comunidade


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Na década de ação para o desenvolvimento sustentável, os fenómenos crescentes de urbanização colocam desafios ambientais e sociais ao bem-estar das populações humanas. Neste contexto, os projetos comunitários são iniciativas de “bottom-up” que abordam esses desafios, tendo como objectivo melhorar a qualidade de vida nas áreas urbanas. Entre estes projetos, os jardins comunitários ganharam popularidade nos últimos anos, uma vez que pretendem ir ao encontro de  uma ampla gama de questões, desde saúde pública, segurança e soberania alimentar, ação climática e empoderamento dos cidadãos. Embora existam extensas referências na literatura sobre os resultados positivos dos jardins comunitários, a maioria dos estudos considera principalmente indicadores qualitativos, e os resultados são frequentemente dependentes do contexto em termos de análise. Além disso, em Portugal, exemplos documentados de jardins comunitários urbanos e projetos baseados em permacultura ainda são escassos.

Neste relatório, propomos uma abordagem baseada num estudo de caso de um jardim comunitário estabelecido em 2009 na Universidade de Lisboa (HortaFCUL), devido ao seu histórico longêvo como referência para outros projetos comunitários. O estudo visa descrever a extensão dos impactos positivos (o valor acrescentado) do ecossistema deste projeto para a comunidade circundante, comparando indicadores baseados em sustentabilidade nas áreas do estudo de caso e instalações equivalentes no campus. A seleção de indicadores partiu do Quadro de Serviços  do Ecossistema da TEEB (The Economics of Ecosystems and Biodiversity), que considera 4 categorias de serviços fornecidos pelos ecossistemas (suporte, regulação, provisão e socio-culturais). Outro quadro universalmente replicável, a Agenda de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, foi adicionado à análise para fortalecer a comparabilidade de um estudo desse tipo. Para situar ainda mais a evolução do impacto do projeto, os indicadores foram enquadrados numa abordagem de substituição espaço-tempo com base em subprojetos nascidos em momentos diferentes desde 2009.

 


Resumo gráfico com os principais indicadores de referência que representam o total de 25 indicadores analisados e organizados nos quatro serviços de ecossistema. Os quatro ecossistemas representam 4 fases distintas de uma horta concebida em permacultura, com diferentes idades de maturação, num quadro de substituição espaço-tempo.

 

A HortaFCUL providencia, sem margem para dúvidas, uma vasta lista de serviços representados nas 4 tipologias identificadas acima: suporte, regulação, aprovisionamento e socio-cultural. Para além disso, através dos indicadores escolhidos foi possível identificar contribuições consideráveis para 9 dos 17 ODS, apesar de a actividade da HortaFCUL, no seu global, tocar todos os 17 ODS de uma forma ou de outra. Os ODS 11: Cidades e Comunidades Sustentáveis, ODS 4: Educação de Qualidade e ODS 15: Vida na Terra sobressaem dos restantes. 

Olhando mais em pormenor para cada tipologia de serviço do ecossistema, nos serviços de suporte, os índices de biodiversidade relativos à flora têm posição de destaque. Foram identificadas, ao todo, mais de uma centena de espécies de ciclo de vida perene numa área que corresponde sensivelmente a 4% da área total do campus. Por outro lado, nos restantes espaços verdes da FCUL (26% da superfície do campus), foram identificadas perto de 90 espécies perenes. 

Quanto aos serviços de regulação, carecemos de dados concretos relativos à mitigação do efeito de ilha de calor vivido em meio urbano por parte dos espaços verdes da HortaFCUL, mas socorremo-nos de uma boa aproximação para demonstrar o papel decisivo do projecto neste aspecto: a cobertura vegetal. Na verdade, em comparação com a generalidade dos espaços verdes da FCUL, áreas como o PermaLab ou a Hortinha do C2 oferecem até 3 vezes mais cobertura de canópia, para além de a vegetação ser estruturalmente mais complexa, o que atenua ainda mais o efeito da radiação solar no aumento de temperatura a nível do solo.   

Noutro âmbito, a HortaFCUL tem sido chave no fecho do ciclo orgânico da faculdade, compostando na íntegra os resíduos produzidos pelas actividades de jardinagem e uma parte considerável do desperdício alimentar proveniente das cafetarias. Entre 2016, data do início do funcionamento do Compostor de Ciências no PermaLab, e 2023, a HortaFCUL produziu perto de 48 toneladas de composto orgânico e, adicionalmente, entre 2021 e 2023, estima-se que tenha produzido cerca de 8 toneladas de vermicomposto. Num ano, dão entrada na HortaFCUL cerca de 4.2 toneladas de resíduos oriundos das cafetarias. 

No entanto, é a nível socio-cultural que o projecto ganha contornos ainda mais relevantes. Desde o início da HortaFCUL, foram identificados 74 guardiões da comunidade. Foram contabilizados mais de 440 eventos (um evento a cada 11 dias) e os dias de trabalhos estimam-se terem sido pelo menos 450 (1800 horas de trabalho voluntário). Os eventos mais representativos - workshops, visitas guiadas e conversas - totalizaram 225 ocorrências em 13 anos, com uma média de 24 participantes por evento (5353 participantes no total). Relativamente a parcerias e apoios directos a outros projectos, houve 87 ocasiões documentadas (6 por ano em média).

Em resumo, este relatório pode ser visto como uma primeira tentativa de resumir cientificamente o valor acrescentado de um jardim comunitário em Portugal. A evolução documentada do projeto aqui pode ser considerada uma curva de aprendizagem para muitas iniciativas que ainda estão a dar os primeiros passos. Embora os objetivos e indicadores de referência para cada projeto comunitário possam variar de acordo com as necessidades específicas do contexto, a estrutura geral deste relatório pode ser usada para monitorizar os benefícios decorrentes da atividade de jardins comunitários. Este esforço de pesquisa deve incentivar trabalhos futuros nesta área, estabelecendo finalmente os jardins comunitários como objetos de estudo cientificamente válidos e relevantes na academia. Esperamos que este relatório dê corpo ao potencial de um jardim comunitário para promover soluções baseadas na natureza “bottom-up” junto de decisores e intervenientes institucionais, bem como para apoiar o potencial regenerativo e transformador que esses projetos têm dentro das suas comunidades locais.

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Texto de António Vaz Pato, David Avelar e Florian Ulm, em representação de toda a equipa HortaFCUL/PermaLab.


Tags: ESFE PSE eChanges SDGs sustainability hortafcul permalab

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