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Novo estudo revela como os carnívoros exploram os diferentes habitats que coexistem no montado

15/02/2017. Texto de Marta Daniela Santos.

Como é que as espécies selvagens se organizam em ecossistemas geridos pelo Homem, como é o caso do montado? Esta foi uma das perguntas que motivou o estudo agora publicado na revista Agriculture, Ecosystems & Environment (*), em que os investigadores observaram o comportamento dos carnívoros mais comuns na Companhia das Lezírias - a raposa, o texugo, o sacarrabos, a geneta e o gato feral. Os resultados alertam para a importância de considerar o impacto das diferentes opções de gestão agroambiental na estrutura e organização das comunidades selvagens.

O montado - as florestas de sobreiro e azinheira tão características do Alentejo - tem sido historicamente gerido pelo Homem para fins florestais, de agricultura e de pastoreio. Estas diferentes utilizações da paisagem têm promovido a manutenção da biodiversidade, ao criarem uma maior diversidade de habitats e de recursos para as espécies selvagens.

No entanto, pouco se sabe ainda como diferentes carnívoros exploram estes novos habitats e recursos adicionais que coexistem no montado, e qual o efeito destas respostas na organização da comunidade. Têm horários preferenciais? Quais os habitats que cada espécie prefere? Serão estas preferências distintas entre espécies, e quais são as consequências para a sua coexistência? Este conhecimento é importante para perceber quais os potenciais efeitos do crescente abandono rural e recentes esquemas de intensificação de produção agrícola que ameaçam homogeneizar a paisagem.

Para responder a estas e outras perguntas os investigadores estudaram os carnívoros mais comuns na Companhia das Lezírias - a maior exploração agroflorestal de Portugal, localizada no centro de Portugal, com uma paisagem de montado (sobreiro) intensamente gerida pelo Homem. Colocaram cerca de cinquenta câmaras de infravermelhos em locais estratégicos correspondentes a diferentes tipos de habitats; a passagem dos animais activava as câmaras, o que permitia aos investigadores depois identificar as espécies e estudar os seus hábitos através das fotografias.

Três espécies abundantes a nível local dominam a comunidade - a raposa-vermelha (Vulpes vulpes), o texugo europeu (Meles meles) e o sacarrabos (Herpestes ichneumon) – enquanto outras espécies exibiram distribuições mais restritas. As espécies mais observadas evidenciaram bastantes diferenças na sua atividade temporal e no uso do espaço. Enquanto que o sacarrabos é diurno, outros carnívoros são predominantemente noturnos, como o texugo (de forma exclusiva) ou a raposa (com picos de atividade ao pôr-do-sol). Mas o destaque vai para a descoberta da relação contrastante das espécies mais comuns com os diferentes habitats criados pelo homem.

"A raposa demonstrou uma preferência por áreas de montado que conservam uma vegetação arbustiva densa, normalmente zonas vedadas ao pastoreio com maior disponibilidade de pequenos mamíferos, evitando outras áreas de montado caracterizadas por zonas de pasto intercaladas por um mosaico arbustivo", explica Gonçalo Curveira-Santos, investigador cE3c e primeiro autor do estudo. "Já os texugos exibiram preferências opostas: ou seja, optaram sobretudo pelas áreas de montado em que é permitido o pastoreio, e em que as zonas de pasto e mato se intercalam. Esta opção é possivelmente motivada pela maior abundância de coleópteros [animais como escaravelhos ou besouros] e maior facilidade de movimento entre a vegetação em áreas de matos esparsos".

Estes resultados demonstram como os carnívoros podem beneficiar da maior diversidade de habitats induzida pelo homem para coexistir em elevadas densidades, seja por causa de uma maior disponibilidade de alimento (maior diversidade e abundância de presas) ou pela existência de características particularmente favoráveis a cada espécie em cada habitat, potencialmente reduzindo os níveis de competição. No entanto, é importante notar que as espécies mais observadas neste estudo são aquilo a que se chama espécies generalistas – capazes de explorar uma maior variedade de condições ambientais e recursos adicionais. Espécies que sejam menos tolerantes à perturbação (espécies especialistas, que dependem de habitats e recursos mais específicos) podem ser afetadas negativamente e expostas a uma maior pressão competitiva por parte das espécies mais beneficiadas.

"Em termos gerais, os nossos resultados alertam para a importância de considerar efeitos na estrutura e organização das comunidades selvagens em resposta a diferentes opções de gestão agroambiental. É necessário avaliar de forma holística respostas específicas e as suas consequências ao nível das interações competitivas entre espécies", conclui Gonçalo Curveira-Santos.

 

(*)

Curveira-Santos, G., Marques, T.A., Björklund, M., Santos-Reis, M. (2017) Mediterranean mesocarnivores in spatially structured managed landscapes: community organisation in time and space. Agriculture, Ecosystems & Environment, Vol.237:280–289. DOI: 10.1016/j.agee.2016.12.037


Tags: CE

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