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Mamíferos percorrem distâncias mais curtas em paisagens modificadas

9/02/2018. Texto adaptado por Marta Daniela Santos do comunicado de imprensa emitido pelo CIBIO-InBIO, disponível aqui

Na fotografia: Saca-rabos (Herpestes ichneumon) | Créditos de imagem: Minozig, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons (aqui)

Um estudo desenvolvido à escala global, publicado recentemente na prestigiada revista Science, conclui que em média os mamíferos percorrem distâncias duas a três vezes mais curtas em paisagens modificadas pelo Homem do que na Natureza. De acordo com os resultados deste estudo, levado a cabo por uma equipa internacional da qual faz parte o investigador João Paulo Silva (cE3c/CIBIO-In-BIO) esta mudança de comportamento pode ter amplas consequências para os ecossistemas.

As deslocações fazem parte do dia-a-dia da maior parte das espécies, e através delas os animais funcionam como intermediários em funções essenciais para os ecossistemas, como a dispersão de sementes e a reprodução de plantas. Atualmente, pelo menos metade da superfície da Terra encontra-se alterada pela actividade do Homem, sendo esta a principal causa da crescente degradação e perda de habitat e biodiversidade.

Para compreender como é que as actividades humanas afectam o movimento de mamíferos terrestres, uma equipa internacional de investigadores analisou os movimentos de mais de 800 animais, de 57 espécies, em várias partes do globo, recorrendo a informações recolhidas com dispositivos GPS e ao Índice de Pegada Humana – um índice que mede o quanto uma área foi alterada pelas actividades humanas.

Os resultados demonstram que a actividade humana tem um impacto significativo no movimento dos mamíferos terrestres, particularmente evidente em intervalos de tempo mais longos. “Num período de 10 dias, em áreas com um Índice de Pegada Humana comparativamente elevado, os mamíferos percorreram entre metade e um terço da distância percorrida em paisagens naturais. Já em escalas de tempo mais curtas, como uma hora, não se percebem diferenças no padrão de movimentação”, explica João Paulo Silva, investigador do cE3c - Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (FCUL) e do CIBIO-In-BIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos.

Embora as áreas intervencionadas pelo Homem possam apresentar vantagens para algumas espécies, continuam a ser paisagens menos permeáveis aos seus movimentos. “A ocupação humana traz, por um lado, uma maior facilidade no acesso a comida, pelo que deixa de ser necessário percorrer distâncias tão grandes em busca de alimento. Por outro lado, a fragmentação da paisagem e as barreiras criadas pelas infraestruturas traduzem-se em dificuldades acrescidas de locomoção”, esclarece João Paulo Silva.

O investigador acrescenta ainda que “ao condicionar os movimentos dos animais a espaços mais limitados, podemos estar a aumentar a probabilidade de conflitos com populações rurais ou a aumentar o risco de contração de doenças”.

As implicações destes resultados vão para além do funcionamento dos ecossistemas, já que a movimentação dos animais tem também um papel essencial na coexistência entre a vida selvagem e o Homem.

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