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Estudo explora relação entre vinculação entre mães e filhos e a toma de antibióticos na infância

3/09/2020. Texto de Marta Daniela Santos. Foto por Adam Nieścioruk em Unsplash.

Um estudo recentemente publicado no Journal of Health Psychology sugere que o tipo de ligação que os bebés estabelecem com as suas mães aos 12 meses de idade pode estar relacionada com a prevalência de toma de antibióticos na infância.

Com um ano de idade, os bebés têm um vínculo com a sua figura materna bem definido que, de acordo com a psicologia infantil, pode seguir um de três tipos de comportamento. Podem ser bebés seguros, em que o bebé recorre à figura materna com confiança, especialmente em situações de alarme ou necessidade, com afeto e proximidade. Ou podem ser bebés inseguros, em que podemos distinguir entre inseguros-evitantes – bebés que recorrem pouco à figura materna, não expressando as suas necessidades – e inseguros-ambivalentes – bebés  que recorrem muito à figura materna, exacerbando as suas necessidades, medos e sentimentos, mas com dificuldade em recuperar e em se acalmar.

O estudo agora publicado é o primeiro a explorar se existe uma ligação entre o apego infantil à figura maternal e a toma de antibióticos na infância, e resulta da colaboração entre uma equipa de investigadores das áreas da psicologia, microbiologia e medicina. Para uma amostra de 134 pares de bebé e respetiva mãe, os investigadores avaliaram o tipo de vinculação da criança com um ano de idade e se já havia tomado antibióticos.

“A nossa hipótese era de que as crianças ambivalentes, ao exacerbarem as suas emoções quando se sentem doentes, conduzem a uma maior preocupação nos pais e nos profissionais de saúde, o que pode levar a uma maior frequência de prescrição de antibióticos”, explica Francisco Dionísio, co-autor do estudo, investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Os resultados foram surpreendentes: dos 29 bebés ambivalentes da amostra, 26 já tinham tomado antibióticos com um ano de idade (89,6%). Pelo contrário, dos 40 bebés evitantes na amostra estudada, apenas 13 já tinham tomado antibiótico com esta idade (32,5%). E entre os 65 bebés seguros da amostra, a prevalência de toma de antibiótico com esta idade era ainda menor: apenas 14 tinham tomado algum antibiótico (21,5%).

“Todos os anos morrem em Portugal cerca de 1100 pessoas devido à resistência a antibióticos e cerca de 33 000 na Europa. Por essa razão, há vários anos que procuramos causas para o exagerado consumo de antibióticos”, refere Francisco Dionísio.  

Segundo Marina Fuertes, co-autora do estudo e investigadora do Centro de Psicologia da Universidade do Porto, “estes resultados são intrigantes, pois os determinantes para a toma de antibiótico não foram os fatores mais relacionados com a imunidade do bebé, como o tempo de amamentação ou tipo de parto, mas sim o comportamento materno. Com efeito, os bebés das mães com mais dificuldade em responder às necessidades dos seus filhos mesmo em momentos de interação livre, sem stress, tinham maior probabilidade de ter tomado antibiótico nos primeiros nove meses de vida. Possivelmente, as famílias precisam de mais apoio na sua parentalidade”

Os investigadores verificaram também que outras variáveis – como o tipo de parto, a criança frequentar ou não creche, o tempo de amamentação e fatores sociodemográficos, entre outras – não revelaram qualquer relação com a toma de antibióticos aos 12 meses de idade.

Face aos resultados deste estudo, os investigadores procuram agora compreender as causas para esta diferença, nomeadamente quais as reações maternas quando os bebés estão doentes, qual a relação com os médicos e a prevalência de doenças infeciosas nos três grupos.

Referência do artigo:

Furtes M., Gonçalves J.L., Faria A., Lopes-dos-Santos P, Conceição I.C., Dionísio F. (2020), Maternal sensitivity and mother-infant attachment are associated with antibiotic uptake in infancy, Journal of Health Psychology. https://doi.org/10.1177/1359105320941245

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