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Fragmentos florestais podem ser capazes de manter as suas funções ecológicas apesar da perda de espécies


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30/01/2020. Texto original de Fábio Farneda, adaptado para português por Fabrício Mota e Marta Daniela Santos. Na imagem: grande morcego nariz de lança (Phyllostomus hastatus). ©: Fábio Farneda. Legenda detalhada no final do texto.

Estudo sobre funções ecológicas desempenhadas por morcegos em florestas fragmentadas faz capa da edição de janeiro de 2020 da revista científica Ecography, disponível aqui. Neste trabalho estão envolvidos os colaboradores do cE3c Fábio Farneda, Ricardo Rocha, Diogo Ferreira, Adrià López-Baucells e Christoph Meyer.

A perda de habitat e fragmentação associada — a divisão do habitat natural em pedaços menores e mais isolados separados por uma “matriz” de habitat modificada pelo Homem — têm efeitos significativos e usualmente negativos para a biodiversidade. Estes efeitos geralmente manifestam-se como declínios locais no número de espécies nos habitats remanescentes. No entanto, até que ponto a perda de espécies causada pela fragmentação de um habitat está também associada à perda de importantes funções ecológicas?

No estudo agora publicado, a equipa internacional de investigadores usou os morcegos como um grupo modelo para explorar como a variação na área florestal e a percentagem de cobertura florestal se traduz em mudanças nos números de espécies e nas funções ecológicas fornecidas por estes animais em duas paisagens fragmentadas: um sistema de ilhas no Panamá, dominado por uma matriz aquática, e um ecossistema florestal na Amazónia brasileira, caracterizado por uma matriz terrestre, dominada por florestas secundárias.  

“Ilhas cercadas por uma matriz aquática inóspita sofrem um decréscimo mais severo no número de espécies que fragmentos de floresta rodeados por floresta secundária. A matriz de floresta secundária parece oferecer uma quantidade significativa de recursos alimentares usado pelos morcegos, e cria condições mais favoráveis à dispersão de muitas espécies pela área degradada”, explica Fábio Farneda, autor principal do estudo e estudante de mestrado no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais - cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, à data de recolha dos dados. Fábio Farneda desenvolveu seu doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil).

“Os nossos resultados indicam que, apesar da redução do número de espécies, os principais serviços de ecossistema fornecidos por morcegos – como a polinização, dispersão de sementes e supressão de artrópodes – podem ser mantidas mesmo em fragmentos relativamente pequenos de floresta, em situações em que estes estejam rodeados por habitats com recursos que possam ser usados pelos morcegos”, diz Christoph Meyer, colaborador do cE3c e investigador da Universidade de Salford (Reino Unido).

Investigar não só a riqueza de espécies mas também como as suas funções ecológicas se degradam em resposta à perda de habitat pode levar a decisões mais conscientes sobre a delimitação de áreas prioritárias para conservação, dizem os autores. “Com base nos nossos resultados, torna-se claro que as estratégias de conservação que procuram minimizar o risco de extinção local de espécies mais sensíveis à alteração florestal devem promover a disponibilidade de habitat em áreas fragmentadas”, refere Carlos Grelle, co-autor do artigo, investigador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil).

 

Na imagem: O grande morcego nariz de lança (Phyllostomus hastatus) é uma das maiores espécies de morcegos nas Américas e habita tanto o arquipélago de Gatún Lake (Panamá) como o terreno fragmentado do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais na Amazônia Central (Brasil). Trata-se de uma espécie omnívora presente tanto em florestas como em áreas urbanas, alimentando-se normalmente de frutas, pólen, artrópodes e pequenos vertebrados. Apesar de não ser fortemente afetado pela desflorestação, esta espécie tem uma importante contribuição para a funcionalidade do ecossistema, atuando como dispersor de sementes, polinizador e controlador populacional de artrópodes e pequenos vertebrados na região Neotropical. ©: Fábio Farneda.

Referência do artigo:

Farneda, F. Z., Grelle, C. E. V., Rocha, R., Ferreira, D. F., López-Baucells, A., & Meyer, C. F. J. (2020). Predicting biodiversity loss in island and countryside ecosystems through the lens of taxonomic and functional biogeography. Ecography, 43(1), 97-106. doi:10.1111/ecog.04507

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