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O ADN de um elefante

11/12/2019. Texto de Fabrício Mota, editado por Marta Daniela Santos e Teresa Santos. Fotografias da autoria de Teresa Santos.

Um estudo recentemente publicado na revista científica Genes* demonstra a necessidade da avaliação genética para a preservação dos elefantes africanos na África do Sul. A análise da variabilidade no ADN demonstrou que os elefantes se encontram geneticamente saudáveis, principalmente devido à retirada de fronteiras entre as reservas vizinhas, sendo capazes de se adaptar a mudanças de ambiente de maneira saudável durante as próximas gerações.  

Com a sua população já muito reduzida, o elefante africano da savana (Loxodonta africana), o maior mamífero terrestre, é foco de esforços para a preservação da sua espécie, sendo um destes a diminuição do risco genético atribuído à baixa disponibilidade de parceiros. Para compreender se a população de elefantes no nordeste da África do Sul ainda são geneticamente saudáveis Teresa Santos, investigadora do cE3c, em colaboração com uma equipa de investigadores locais e internacionais, realizou um estudo genético na região do Parque Nacional Kruger na África do Sul com o objetivo de criar uma base para o acompanhamento genético desta espécie.

Por causa da população e espaço limitado, as espécies tendem a perder variabilidade genética, levando a diversos problemas de adaptabilidade e à perpetuação de características pouco interessantes devido à baixa variabilidade genética disponível. A falta de um estudo na região para aferir as condições genéticas dos elefantes africanos levantava a questão sobre a saúde genética da espécie e sobre a possibilidade de a sua preservação estar comprometida.

Neste estudo, a equipa de investigação analisou a diversidade genética da população de elefantes presente no Parque Nacional Kruger e em reservas privadas adjacentes na África do Sul. Foram amostrados 294 animais, tendo estes a capacidade de transitar entre as reservas e o Parque Nacional do Limpopo em Moçambique o qual faz fronteira aberta há quase duas décadas.

O estudo não só analisou a variabilidade genética dos elefantes, mas também traços partilhados entre todos os membros da população, não somente local mas em toda a África, para testar a identidade dos indivíduos enquanto espécie.

“Em geral, apesar dos elefantes terem sido quase erradicados da área do Parque Nacional do Kruger entre o final do século XIX e o início do século XX, a população estudada está actualmente geneticamente saudável e apresenta níveis de diversidade similares a outras populações do sul de África”, explica Teresa Santos. “No entanto, é imperativo continuar a monitorização no futuro, não só porque se trata de uma das maiores populações de elefante africano, como porque o efectivo populacional está abaixo do valor mínimo necessário para a manutenção a longo prazo da diversidade genética e capacidade de adaptação a alterações ambientais”, acrescenta a investigadora.

Estes resultados demonstram a importância da retirada de fronteiras e cercas entre áreas de preservação, que fizeram com que estes animais hoje se encontrem saudáveis e possam se adaptar a alterações no seu ambiente, como mudanças climáticas e doenças, entre outros. Este torna-se assim o caminho desejável na preservação não somente dos elefantes, mas de diversas espécies que sofreram com a interferência humana ao longo dos anos. 

“Os nossos resultados advêm do tempo longo de geração dos elefantes, de um crescimento rápido populacional e da entrada de novos indivíduos para a população ao longo do tempo. De facto, houve migração natural para estas áreas quando não existiam cercas e eventos de translocação quando elas existiam, o que acaba por contribuir para uma menor quebra na diversidade genética. Este não é necessariamente o caso para muitas outras populações de outras espécies que estão fragmentadas. A existência de fronteiras não naturais pode levar à diminuição da diversidade genética que é vital para que as populações e espécies se consigam adaptar às alterações ambientais e, consequentemente, pôr em causa a viabilidade a longo prazo das populações. Tendo em conta as rápidas mudanças ambientais em curso, torna-se essencial reconectar populações”, conclui Teresa Santos.

Este trabalho resultou da cooperação entre investigadores do cE3c e investigadores da Universidade de Sheffield – Reino Unido, Universidade de Cambridge – Reino Unido, Universidade da África do Sul, Universidade de Witwatersrand – África do Sul, Universidade de Hong Kong – China e o Instituto de Estudos Avançados de Berlim – Alemanha.

(*)   Santos, T. L., Fernandes, C., Henley, M. D., Dawson, D. A., & Mumby, H. S., Conservation Genetic Assessment of Savannah Elephants (Loxodonta africana) in the Greater Kruger Biosphere, South Africa. Genes 2019, 10, 779. https://doi.org/10.3390/genes10100779

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