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A biodiversidade escondida

24/10/2019. Artigo de divulgação de Lourdes Morillas no âmbito do projeto Med-N-Change, publicado inicialmente em espanhol aqui. Tradução de Marta Daniela Santos.

Não é segredo que a biodiversidade é crucial para que os ecossistemas enfrentem com sucesso os desafios ambientais. A sociedade terá melhores hipóteses para enfrentar a próxima crise ambiental se um elevado número de espécies de plantas e animais preencher as áreas naturais já em decréscimo no nosso planeta. Assim, os seres humanos continuarão a beneficiar de bens e serviços tão importantes como o fornecimento de água limpa ou a decomposição de resíduos orgânicos que os ecossistemas nos fornecem. Por outras palavras: os serviços dos ecossistemas serão mantidos – uma mensagem que a comunidade científica tem reforçado nas últimas décadas. No entanto, para além de plantas e animais existem outros organismos que também contribuem para estabilizar os nossos ecossistemas, mas que são frequentemente negligenciados. Nesta categoria dos grandes esquecidos, podemos incluir os organismos que formam a crosta biológica do solo.

A crosta biológica do solo – muitas vezes referida como bio-crosta – foi recentemente definida como uma “pele viva” que cobre a superfície do solo. Pode ser encontrada principalmente em ecossistemas com baixa produtividade, ou seja, ecossistemas áridos e semi-áridos, como as áreas mediterrâneas que são limitadas sazonalmente pela água. Essa cobertura do solo pode ser composta de diferentes proporções de líquenes, fungos, musgos, cianobactérias e algas, entre outros organismos, e permite o estabelecimento de redes tróficas realmente complexas em pequena escala.

A bio-crosta do solo é fundamental no ciclo de um elemento crucial nos ecossistemas do Mediterrâneo: o nitrogénio. Depois da água, o nitrogénio é o fator mais importante nesses ecossistemas, porque limita o crescimento das plantas e a decomposição da matéria orgânica. Além disso, a bio-crosta afeta tanto a abundância quanto a diversidade de microrganismos do solo, fornece proteção física e determina a infiltração da água da chuva, entre outras funções importantes.

Bio-crosta do solo.

Até à década de 1970, a comunidade científica não percebia a importância da bio-crosta do solo. A partir desse momento, as revistas científicas começaram a publicar um número crescente de artigos de investigação destacando o importante papel da bio-crosta. No entanto, nesses artigos a bio-crosta era considerada como um todo, um elemento único que pode ou não estar presente, mas ignorando os diferentes tipos de bio-crosta que podem ser encontrados. Essa falta de atenção aos diferentes organismos que compõem a bio-crosta pode ser responsável, pelo menos parcialmente, pelas conclusões divergentes publicadas nesses trabalhos científicos. Recentemente, a comunidade científica percebeu essa visão limitada e começou a ter em consideração os diferentes tipos de bio-crosta que podem ser encontrados, tendo em conta o organismo que deu origem à sua formação e que é mais comum na sua composição – ou seja, bio-crostas principalmente compostas por líquenes, musgos ou cianobactérias. Alguns estudos são ainda mais aprofundados e identificam as espécies presentes na bio-crosta, afinando as características desta comunidade. Estes esforços estão a permitir um conhecimento mais profundo da complexidade da bio-crosta, considerando-a como todo um ecossistema em miniatura.

Estudos recentes demonstraram que o efeito que os desafios ambientais têm nos ecossistemas é diferente dependendo da presença ou ausência da bio-crosta do solo. Ou seja, a bio-crosta atuaria como um modulador dos fatores responsáveis pelas alterações globais, como as alterações climáticas ou a deposição atmosférica do nitrogénio derivada da combustão de combustíveis fósseis. Isto confere à bio-crosta um papel fundamental neste contexto, pois é possível que os organismos que a formam levem os solos dos ecossistemas a responder de forma diferente às alterações ambientais. Por outras palavras: uma bio-crosta dominada por líquenes poderia abrandar o efeito das alterações climáticas sobre a decomposição da matéria orgânica, enquanto que uma bio-crosta dominada por musgo poderia ter o efeito contrário.

Conhecer o papel específico de cada organismo que forma a bio-crosta do solo irá permitir que os administradores de terras estabeleçam políticas ambientais e de restauro que protejam os componentes da bio-crosta mais apropriados à conservação dos nossos ecossistemas. À luz dos grandes benefícios que podem ser extraídos a partir da identificação dos componentes da bio-crosta em resposta às alterações globais, a Comissão Europeia financiou recentemente o projeto Med-N-Change. Este projeto estudará o efeito que resulta da sinergia entre dois importantes fatores de alterações globais que afetam os processos do solo – as alterações climáticas e a deposição atmosférica de nitrogénio – por meio da análise da bio-crosta do solo nos ecossistemas do Mediterrâneo. Esperamos que as conclusões deste estudo tenham implicações importantes para a política ambiental, a gestão de ecossistemas e os cenários de previsão de alterações globais nos ecossistemas do Mediterrâneo.

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