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Best Poster Award 2018: Entrevista a Fernando Madeira


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17/08/2018. Entrevista por Marta Daniela Santos. Fotografia de destaque por Tiago Avelar Machado.

Fernando Madeira, estudante de doutoramento no cE3c-FCUL, foi distinguido no Encontro Anual cE3c 2018 com o Best Poster Award (em ex-aequo com Teresa Santos, cuja entrevista publicámos na semana passada) como primeiro autor do poster Nesting birds as heat providers? Peculiar thermorregulation behaviour in Madeiran wall lizards (Teira dugesii selvagensis).

Fernando Madeira está a iniciar o seu doutoramento no âmbito do Programa Doutoral em Biodiversidade, Genética e Evolução (BIODIV), inserido no grupo “Conservation in Socio-Ecological Ecosystems – CSEE” do cE3c. Os seus interesses de investigação passam pela Ecologia e Conservação de Répteis e Anfíbios.

 

No que consiste o trabalho que apresentaste neste poster?

Este poster é referente a parte do trabalho desenvolvi durante a minha tese de mestrado.

A lagartixa-da-Madeira (Teira dugesii) é um lacertídeo endémico dos arquipélagos da Madeira e das Selvagens. Esta espécie é extremamente oportunista e consegue alimentar-se de praticamente tudo, desde invertebrados marinhos na zona intertidal, néctar de flores, frutos, vegetação, a cadáveres de aves marinhas e mesmo das suas crias, se estiverem fracas, e ovos.

Na Selvagem Grande, local onde foi documentada a predação de ninhos de aves marinhas, foram inclusivamente observadas lagartixas activas durante a noite.

Dado que as aves marinhas Procellariiformes, tais como as cagarras (Calonectris borealis), retornam à noite a terra para alimentar as crias, é possível que as lagartixas estejam a alargar o seu ciclo de actividade diário para aproveitar os restos de alimento.

Com este estudo foi possível determinar que as lagartixas, atraídas pelo odor dos restos de alimento, saem de facto à noite para se alimentar nos ninhos de cagarra. Adicionalmente, foi possível verificar que na ausência de calor solar as lagartixas utilizaram o calor residual das aves para se aquecerem.

A actividade noturna em lacertídeos é incomum e este é possivelmente o primeiro caso reportado de um animal a utilizar outro para termorregulação.

Quais são os principais desafios neste trabalho?

Os principais desafios deste trabalho foram mesmo as horas de amostragem e avarias técnicas no campo.

Para conseguir comparar a actividade nocturna das lagartixas com a diurna, e para descrever a variação diária das suas temperaturas corporais tive de amostrar em períodos termicamente distintos - nascer do sol, manhã, tarde, pôr-do-sol e meia noite. A minha área de amostragem ficava num local com um declive relativamente acentuado, e subir e descer sucessivamente para amostrar é desafiante, especialmente quando o trabalho começa muito cedo e acaba tarde.

Por sua vez a avaria de algum equipamento técnico essencial (câmaras e disco externo) fez me perder algumas sessões de amostragem.

Apesar de tudo a minha experiência no campo foi espetacular, e estes contratempos ajudaram-me a ter uma perspectiva melhor das limitações do trabalho de campo e do espírito de “desenrasque” necessários para as ultrapassar.

Estás no início do teu doutoramento: já planeaste quais as questões científicas que pretendes estudar nos próximos quatro anos?

Nestes próximos anos vou mudar de cenário e vou trabalhar com tartarugas marinhas no arquipélago das Bijagós na Guiné Bissau, no âmbito do projecto “Consolidação da conservação das tartarugas marinhas no Arquipélago dos Bijagós”.

Irei trabalhar com questões e metodologias um pouco diferentes, tais como seguir os seus movimentos, tentar estudar um pouco a sua dieta, entre outras coisas.   

Vai ser um desafio e contexto bastante diferente e espero encontrar novas questões e respostas interessantes!

Queria agradecer aos meus orientadores Rita Patrício e Rui Rebelo e ao projecto esta oportunidade!

Porque escolheste esta área de investigação?            

Desde sempre que as questões ligadas à ecologia e conservação me fascinaram, cativaram e moldaram, acho que seria impossível ter escolhido uma área diferente...

Acho que falo por uma maioria quando digo que os documentários são uma autêntica forja de ecólogos e eu não fui exceção.

Os répteis e anfíbios em particular sempre me cativaram, não só pelo seu carisma próprio e biologia fascinantes, mas também pelo facto de serem um pouco incompreendidos e por vezes até ignorados.

O que significa para ti receber esta distinção?

Foi uma surpresa e uma honra enorme ter recebido este prémio, não estava realmente à espera! Foi particularmente bom poder partilhar esta distinção com a minha colega BIODIV Teresa Santos, isto significa que há investigadores relativamente novos a desenvolver trabalho interessante e reconhecido!

Acho que a principal alegria é mesmo essa, o reconhecimento do trabalho feito. A tese de mestrado é para muitos de nós o nosso primeiro grande projecto (pelo menos aos nossos olhos) e após ter-me dedicado totalmente à minha, sabe bem ver que ela é valorizada pelos nossos pares! Muito obrigado a todos!

Que conselhos gostarias de deixar para quem pretenda seguir esta área?

Muita gente refere que a investigação não é uma opção inteligente de carreira, tanto pelo seu caracter precário como pela falta de oportunidades.

Falando por mim, apesar de estes factos serem infelizmente uma realidade, penso que fazer algo de que realmente gostamos não tem preço e que devemos dar sempre uma oportunidade aos nossos sonhos. Acho que com o decorrer da vida nos arrependemos mais das vezes em que não tentamos do que das que não resultaram…

Dentro do contexto atual, o melhor que posso aconselhar a quem pensa seguir por esta área é manterem a motivação, entusiasmo e dedicação, e acima de tudo mostrá-los! Penso que muitos de nós temos por vezes medo de arriscar e que isso limita as nossas oportunidades. Mostrar iniciativa e interesse também ajuda bastante. Por isso sejam perseverantes e não tenham medo de se candidatarem a oportunidades, de pedir e oferecer ajuda e de falar com investigadores que admirem ou com quem gostassem de colaborar!

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