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Carnívoros, búzios e cigarras em África: Três estudantes do cE3c distinguidos com bolsas da National Geographic

6/07/2018. Texto e fotografia por Marta Daniela Santos.

Gonçalo Curveira-Santos, Martina Panisi e Gonçalo Costa, estudantes no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), foram distinguidos pela National Geographic com três bolsas Early Career para desenvolverem projetos na área da Biodiversidade e Conservação, que vão permitir aprofundar o estudo de várias espécies em diferentes latitudes do continente africano e alertar para a necessidade da sua conservação.

Carnívoros terrestres, búzios gigantes e cigarras: são estas as espécies com que Gonçalo Curveira-Santos, Martina Panisi e Gonçalo Costa vão trabalhar nos próximos meses, com o apoio financeiro de bolsas Early Career com que foram distinguidos pela National Geographic. Os projetos vão decorrer ao longo dos próximos 12 meses e permitem-lhes dar continuidade e aprofundar o trabalho que estão a desenvolver nos seus projetos no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais.

Investigação: Compreender como os carnívoros respondem à influência do homem nos ecossistemas do Sul de África

A África do Sul é uma região privilegiada para estudar a influência do homem sobre carnívoros terrestres – como o leão, o leopardo ou o chacal, entre outros – pela elevada diversidade de espécies que aí vivem e pelo leque variado de paisagens, onde áreas protegidas coexistem com reservas privadas e paisagens dominadas pelo Homem.

Estas espécies têm um papel importante na estrutura e funcionamento dos ecossistemas, mas são também bastante sensíveis à qualidade ambiental, em particular às perturbações induzidas pelo Homem. Como é que a ação humana afeta a forma como estes animais utilizam o espaço e a forma como as espécies interagem entre si e com outras? É esta a pergunta a que Gonçalo Curveira-Santos, atualmente a desenvolver o seu doutoramento na FCUL, pretende responder: “Em julho [de 2018], na época seca, vamos instalar cerca de cem câmaras fotográficas numa área protegida em KwaZulu-Natal, uma província da África do Sul. Uma vez identificada a espécie em cada fotografia, e com base na hora e local registo, iremos avaliar a composição da comunidade de carnívoros e modelar como a organização espacial da mesma varia entre diferentes paisagens, em função do nível de perturbação humana e da presença ou ausência de grandes predadores”, explica.

Este financiamento permite alargar o leque de paisagens em análise num trabalho que teve início em 2017, quando instalaram cerca de duzentas câmaras fotográficas numa região de cerca de 450 km2 na costa Este Sul Africana, que incluiu reservas privadas, fazendas de gado e comunidades tribais Zulu. “Ao compreendermos melhor como os carnívoros, incluindo espécies de menor porte frequentemente ignoradas, respondem às alterações ambientais induzidas pelo Homem, vamos poder contribuir para o desenho de planos de conservação e gestão mais eficazes para os predadores desta região”, conclui Gonçalo Curveira-Santos.

Educação: Aprender com os búzios gigantes das florestas de São Tomé e Príncipe

Em São Tomé e Príncipe encontramos uma espécie de búzio gigante que só existe neste arquipélago: o Búzio-d’Obô (Archachatina bicarinata). Esta espécie é utilizada pela população santomense como alimento e para fins medicinais, e a sua recolha intensiva é aliás um dos fatores que está na origem do seu rápido declínio nas últimas décadas, aliado à destruição do seu habitat e à introdução de espécies invasoras.

Neste projeto, Martina Panisi, agora a iniciar o seu doutoramento na FCUL, vai dar continuidade ao trabalho que iniciou no mestrado, utilizando a história desta espécie como ponto de partida para sensibilizar a população para a importância da conservação da biodiversidade nativa e para o papel de cada um para a sua salvaguarda: “Queremos trazer a história desta espécie à escolas e comunidades de São Tomé através de aulas e debates que realizaremos a partir de outubro”, explica.

Com esta iniciativa, Martina Panisi pretende chegar a parceiros e organizações que possam ajudar a desenvolver planos de conservação para a espécie no país, bem como alcançar uma audiência mais internacional – objetivo para o qual a visibilidade dada pela National Geographic é essencial: “Durante a nossa estadia iremos usar meios de comunicação social e utilizar técnicas de storytelling para contar a nossa experiência e revelar um pouco sobre a biodiversidade e cultura de São Tomé”, destaca.

Storytelling: Conhecer as cigarras de Marrocos, antes que seja tarde demais

Marrocos é uma região bastante rica na sua diversidade de habitats, sendo também particularmente vulnerável às consequências das alterações climáticas. É também rica a diversidade de cigarras que existem nesta região – aqueles insetos bastante conhecidos pelo seu canto característico exclusivo dos machos, e geralmente específico de cada espécie, para atrair as fêmeas para o acasalamento. Mas a descrição científica das cigarras de Marrocos é ainda muito pobre, por estar baseada em espécimes muito antigos e ainda sem reconhecimento acústico.

Será possível gravar os cantos das cigarras de Marrocos, e estudar a sua biologia, antes que as alterações climáticas e as perturbações ambientais induzidas pelo Homem provoquem a sua extinção? “Vamos usar uma abordagem integrativa para estudar estas espécies pouco conhecidas. A mais-valia do nosso projeto será fazer a ponte entre o mundo científico e a população. Estamos à procura de patrocinadores para aumentar a visibilidade do projeto”, explica Gonçalo Costa, Mestre em Biologia Evolutiva e do Desenvolvimento pela FCUL e responsável por este projeto.

A expedição a Marrocos está marcada para julho deste ano e Gonçalo Costa prevê que os dados que vão recolher podem dar origem à descoberta de algumas novas espécies de cigarra para a ciência. “Recentemente descobrimos duas novas espécies de cigarra a cantar em Marrocos e, com o apoio da National Geographic, este número só irá aumentar”, destaca.

Um trabalho em equipa

Estes estudantes não estarão sozinhos nesta aventura – da equipa de cada projeto fazem parte dois a três investigadores que os irão orientar no desenvolvimento dos trabalhos – mais informações sobre cada projeto e a sua equipa estão disponíveis no final deste artigo.

As Bolsas Early Career da National Geographic têm como objetivo dar a oportunidade a estudantes em início de carreira a oportunidade de liderar um projeto nas áreas de conservação, educação, investigação, storytelling ou tecnologia, não sendo necessário que os candidatos tenham uma formação avançada. Mais informações sobre o Programa de Bolsas National Geographic estão disponíveis aqui.

Os projetos

Structuring of South African carnivore assemblages across human-induced landscape gradients: implications for predator management and conservation

Responsável: Gonçalo Curveira-Santos (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

Equipa:

- Margarida Santos-Reis (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa),

- Lourens Swanepoel (Universidade de Venda, África do Sul).

Learning with the Forest Giants (snails): a story to be told

Responsável: Martina Panisi (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

Equipa:

- Vasco Pissarra (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

- Ricardo Faustino de Lima (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

- Paulo Nuno Vicente (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa).

Mais informações disponíveis em http://vascopissarra.pt/forest-giants.html .

The final cries of the unheard Moroccan cicadas

Responsável: Gonçalo Costa (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

Equipa:

- Eduardo Marabuto (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

- Raquel Mendes (cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

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