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Recuperação da floresta tropical da Amazónia resgata populações de morcegos da quase-extinção

28/02/2018. Texto de Ricardo Rocha e Marta Daniela Santos.

Na imagem: Phyllostomus discolor, uma espécie de morcego omnívora e uma das espécies em estudo neste projeto, aqui a caçar um inseto da família Tettigoniidae. Fotografia de Adrià López-Baucells.

Um novo estudo (*) conduzido na floresta Amazónica por uma equipa internacional sugere que a regeneração da floresta tropical pode reverter a atual avalanche de extinções de espécies tropicais causada pela fragmentação do seu habitat. Estes resultados, agora publicados na revista Scientific Reports, chancela da Nature, representam um sinal de esperança para a biodiversidade das florestas tropicais de todo o mundo.

Neste estudo, os investigadores recorreram a mais de 6000 capturas de 50 espécies de morcegos para investigar como é que a recuperação da floresta tropical afetava a persistência destas espécies num habitat que havia sido fragmentado experimentalmente, no âmbito do projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (Biological Dynamics of Forest Fragments Project, em inglês), no Brasil – o maior projeto de fragmentação a nível experimental do mundo.

Quinze anos após a criação de um conjunto de fragmentos através da queima e limpeza da floresta circundante, entre 1996 e 2002 a equipa internacional de investigadores verificou que as populações de espécies fortemente associadas a este habitat tinham diminuído de forma drástica. No entanto, os dados recolhidos ente 2011 e 2013 – trinta anos após o início do processo de fragmentação – revelam que com a regeneração da floresta tropical em torno destes fragmentos várias espécies que tinham abandonado a região regressaram.

Os morcegos representam cerca de um quinto de todas as espécies de mamíferos, e a floresta Amazónica apresenta uma das faunas de morcegos mais rica e diversa do mundo. “A resposta dos morcegos demonstrada neste estudo dá pistas importantes sobre a possível resposta de outros grupos de espécies”, explica Ricardo Rocha, investigador do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e da Universidade de Cambridge (Reino Unido). “A recuperação que documentámos espelha os padrões já observados para coleópteros e aves, noutros estudos realizados no âmbito deste projeto. Estas tendências paralelas reforçam a ideia de que os benefícios da regeneração da floresta estão longe de beneficiar apenas algumas espécies e sugerem que a recuperação do habitat pode mitigar os estragos causados pela atividade do Homem na vida selvagem tropical”, acrescenta.

“A recuperação observada no nosso estudo ficou a dever-se sobretudo à recolonização de áreas previamente desflorestadas e fragmentos de floresta, uma recolonização que provavelmente se pode atribuir a uma maior diversidade e abundância de recursos alimentares em áreas agora novamente ocupadas por floresta, cumprindo os requisitos energéticos de um maior conjunto de espécies”, esclarece Ricardo Rocha.

O facto de a maioria dos estudos desta natureza serem de curto prazo não permite avaliar de forma adequada ao longo do tempo os efeitos complexos da fragmentação da floresta na vida selvagem. “Os estudos de longo prazo, como o nosso, são essenciais para desvendar a dinâmica complexa das alterações da biodiversidade em paisagens tropicais modificadas pelo Homem”, conclui Christoph Meyer, colaborador do cE3c, investigador da Universidade de Salford (Reino Unido) e coordenador do estudo.

(*) Rocha, R., Ovaskainen, O., Lopez-Baucells, A., Farneda, F., Sampaio, E., Bobrowiec, P., Cabeza, M., Palmeirim, J. and Meyer, C.F.J. 2018. Secondary forest regeneration benefits old-growth specialist bats in a fragmented tropical landscape. Scientific Reports, doi:10.1038/s41598-018-21999-2
www.nature.com/articles/s41598-018-21999-2

 

Press coverage: [Wilder][Blue Oak].
E também: [Science Daily], [Phys.org], [AlphaGalileo].


Tags: CE

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