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Morcegos, vírus e uma cultura de medo: a receita para o desastre?

1/11/2017. Texto por Adrià López-Baucells e Marta Daniela Santos. Fotografias de Adrià López-Baucells.

Um estudo agora publicado na revista Mammal Review (*) mostra que a maioria dos estudos virológicos relacionados com morcegos os retrata apenas como uma ameaça para a saúde pública e, por isso, fornecem uma visão distorcida deste grupo de animais. Esta visão reforça uma cultura de medo que mina décadas de esforços de conservação destes animais, que têm um papel fundamental no fornecimento de serviços dos ecossistemas.

Todos os anos, nesta altura do ano, cidades um pouco por todo o mundo são invadidas por decorações retratando um dos símbolos mais assustadores do Halloween: os morcegos. Esta associação entre os morcegos e o Halloween reflete uma longa associação entre este importante grupo de animais e um antigo preconceito cultural decido a lendas, mitos e folclore. De forma alarmante, estes estigmas negativos aos quais os morcegos estão tradicionalmente associados têm sido recentemente reforçados pelos media ao apresentarem os morcegos como ameaças para a saúde humana.

Embora os morcegos (como muitos outros grupos de animais, incluindo os animais de estimação) possam potencialmente transmitir algumas doenças aos seres humanos, são também responsáveis por diversos benefícios, como o controlo dos mosquitos portadores de patogenos ou pragas agrícolas. O desaparecimento dos morcegos traduzir-se-ia em enormes perdas económicas e, possivelmente, no colapso dos sistemas de larga escala.

Um estudo agora publicado na revista Mammal Review mostra que os estudos virológicos relacionados com os morcegos tendem a fornecer uma imagem tendenciosa destes animais, apresentando-os quase exclusivamente como um reservatório perigoso de vírus mortais e, consequentemente, reforçando estereótipos negativos que comprometem os esforços de conservação dos morcegos.

Os investigadores analisaram o enquadramento em que são apresentados os morcegos em mais de 130 artigos científicos virológicos. A análise demonstrou que em mais de metade dos artigos os morcegos eram descritos como uma grande preocupação para a saúde pública, omitindo na maior parte das vezes o seu papel fundamental no fornecimento de serviços de ecossistema. Este enquadramento tendencioso dos morcegos baseava-se geralmente em evidências fracas de potenciais vias de transmissão de doenças de morcegos para os seres humanos, ou no número de casos mortais em humanos.

“Devido à grande variedade de imagens negativas que os morcegos evocam, este enquadramento tendencioso tem um enorme potencial para permear além do círculo académico, através dos media e das redes sociais”, explica Ricardo Rocha, um dos autores deste estudo, colaborador do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa - FCUL) e investigador na Universidade de Cambridge (Reino Unido).

Por exemplo, um artigo recente de revisão sobre padrões zoonóticos foi referido na comunicação social com títulos como “Os morcegos são especiais, mas não de uma boa maneira” ou “Morcegos vampiros atacam, num festim de humanos no Brasil”. Ao reforçar uma cultura de medo, a demonização dos morcegos pode acelerar a redução dos valores que a sociedade coloca neste grupo, rico em espécies, e consequentemente ameaçar a sua persistência a longo-prazo.

“Enquanto que o medo se propaga facilmente de pessoa para pessoa, como um vírus, valores como o respeito ou a estima pelos morcegos demoram muito a estabelecer-se”, alerta Adrià López-Baucells, investigador do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (FCUL) e no Natural Science Museum of Granollers (Catalunha).

Os autores do estudo alertam para a urgência de uma abordagem integrada e interdisciplinar para articular a comunicação da investigação em morcegos, de forma a proporcionar à sociedade uma percepção abrangente e imparcial deste grupo de animais.

 

(*) López-Baucells, A., Rocha, R., Fernández-Llamazares, When bats go viral: Negative framings in virological studies imperils bat conservation Mammal Review. doi: 10.1111/mam.12110

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/mam.12110/full

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