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Ondas de calor podem alterar os impactos do lagostim-vermelho-da-Louisiana, uma das piores espécies invasoras em Portugal

Note: available in English here.

6/09/2017. Texto de Marta Daniela Santos.

Na fotografia: Lagostim-vermelho-da-Louisiana macho em dispersão terrestre, Serra de Grândola. Fotografia de André Santos.

Novo estudo (*) revela que o lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarkii), a espécie invasora de lagostim mais bem-sucedida do mundo e que também é invasora em Portugal, adota uma dieta mais herbívora com o aumento da temperatura da água. Esta é uma espécie-chave nas cadeias tróficas e, visto que a as projeções climáticas indicam que as ondas de calor se irão tornar mais frequentes, intensas e longas ao longo do século, o aumento da herbivoria pode vir a alterar os seus impactos ecológicos e económicos no futuro.

O lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarkii), nativo do sul dos Estados Unidos e do nordeste do México, está entre as dez espécies invasoras que causam mais danos ecológicos e económicos a nível mundial. Esta espécie é omnívora, alimentando-se tanto de plantas aquáticas como de moluscos, insetos e mesmo alguns peixes. Além de ser responsável por extinções regionais e globais de espécies um pouco por todo o mundo, este lagostim de água doce é também responsável pela degradação dos habitats que invade. Em Portugal, este lagostim já ocorre na maior parte das zonas húmidas de todo o país, e mantém grandes populações nos arrozais.

Para avaliar o impacto das ondas de calor na dieta e no crescimento desta espécie, os investigadores simularam ondas de calor de curta e de longa duração em laboratório, às quais expuseram lagostins juvenis e adultos alimentados com uma dieta animal, vegetal ou mista.

Os resultados sugerem que as alterações climáticas podem mudar a natureza do impacto do lagostim-vermelho-da-Louisiana nos ecossistemas. “As ondas de calor provocaram um aumento do consumo da dieta vegetal, particularmente elevado nos lagostins juvenis, que são por natureza mais carnívoros que os adultos. Assim, prevê-se que as alterações climáticas alterem significativamente a natureza do seu impacto nos ecossistemas – diminuindo a predação sobre insetos e outros animais aquáticos, e aumentando o seu impacto na vegetação aquática e nos arrozais”, explica Bruno Carreira, primeiro autor do estudo e investigador do cE3c, sediado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Trabalhando em colaboração com investigadores do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia e do Departamento de Ecologia Animal da Universidade de Uppsala (Suécia), este investigador tinha já publicado no final de 2016 um estudo com resultados semelhantes, onde demonstrou que as ondas de calor aumentam a herbivoria dos girinos de algumas espécies nativas de rãs, tendo alertado que o mesmo poderia suceder noutros grupos animais.

As alterações climáticas - e em particular neste caso o aumento da frequência e gravidade de eventos climáticos extremos como as ondas de calor - poderiam favorecer o lagostim-vermelho-da-Louisiana e aumentar o seu impacto nos ecossistemas. Mas ao contrário desta hipótese colocada inicialmente pelos investigadores, os resultados mostram que ondas de calor mais longas podem ter efeitos negativos neste lagostim. “Esta espécie é nativa de uma região com clima subtropical e o seu estabelecimento e propagação na Europa são limitados principalmente pelas temperaturas mais baixas, características do nosso clima temperado. Assim, o aquecimento global e as ondas de calor deveriam favorecer esta espécie, mas na verdade os nossos resultados mostram efeitos negativos de uma onda de calor longa no crescimento e na condição física dos animais. Embora inesperado, este resultado sugere que pode ter havido evolução rápida e que as populações desta espécie possam ter-se adaptado ao nosso clima desde a sua invasão do território nacional, que começou em 1979”, explica Bruno Carreira.

Ao adotar uma dieta mais herbívora, o lagostim-vermelho-da-Louisiana altera a sua posição na cadeia alimentar, o que se pode traduzir em alterações nos principais impactos desta espécie: “A maior herbivoria com o aumento da temperatura da água poderá intensificar o impacto ecológico desta espécie na vegetação aquática de ecossistemas com elevada biodiversidade, como é o caso dos charcos temporários mediterrânicos. Para além disso, praticamente todos os arrozais do país têm populações estabelecidas de lagostim-vermelho-da-Louisiana, onde a época de crescimento dos lagostins juvenis coincide com a época de crescimento das plantas de arroz. Assim, uma maior tendência para a herbivoria por parte destes juvenis pode aumentar o consumo da planta de arroz e os impactos económicos deste lagostim”, conclui Rui Rebelo, coordenador do projeto, investigador no cE3c e docente na FCUL.

(*) Carreira BM, Segurado P, Laurila A, Rebelo R (2017) Can heat waves change the trophic role of the world’s most invasive crayfish? Diet shifts in Procambarus clarkii. PLoS ONE 12(9): e0183108. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0183108

Press coverage: [Wilder], [Diário de Notícias], [O Jogo], [Sapo 24], [Público], [GreenSavers][Agencia SINC], [iAgua], [El Digital de Asturias], [NCYT - Noticias de la Ciencia y la Tecnologia], [La Razón], [Almuñécar Digital]. E também: [La Nueva España], [atresmedia].


Tags: CE

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