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Investigadores desvendam origem do sapo asiático que está a invadir a ilha de Madagáscar

6/06/2017. Texto de Marta Daniela Santos e Gonçalo M. Rosa. Fotografia de Franco Andreone.

Novo estudo revela, através de análises genéticas, que o sapo-asiático que está a invadir Madagáscar terá origem numa população do Camboja e Vietname. A espécie tem um potencial muito devastador para a biodiversidade da ilha. Os investigadores alertam para um desastre ambiental iminente caso a propagação desta espécie invasora não seja travada a tempo.

Madagáscar é conhecido pela sua extraordinária fauna e flora únicas no mundo. Mas esta biodiversidade está mais uma vez em risco com a chegada de uma espécie invasora: o sapo-comum-asiático (Duttaphrynus melanostictus), detetado pela primeira vez nesta ilha do Índico em 2014. O sapo asiático é predador das mais diversas espécies e, além disso, produz toxinas que podem levar à morte dos animais que dele se tentem alimentar, como serpentes, aves ou mamíferos.

Estudos recentes apontam para que este sapo, com uma distribuição alargada pelo sul da Ásia e ocupando diversos tipos de habitats, seja na verdade um complexo de várias espécies. No entanto, a origem da população de Madagáscar era ainda desconhecida. No estudo agora publicado, os investigadores determinaram através de análises genéticas que a população de sapos asiáticos que está a invadir Madagáscar tem maior afinidade com a população do Camboja e Vietname. A cidade vietnamita de Ho Chi Minh tem um grande porto marítimo, com cargueiros que frequentemente transportam mercadoria de e para Madagáscar, podendo ter sido esta a forma mais provável da introdução.

“Saber exactamente de que população são originários estes sapos asiáticos introduzidos em Madagáscar permite-nos compreender melhor se existirão algumas limitações bioclimáticas que tornarão a sua dispersão mais difícil”, explica Gonçalo M. Rosa, co-autor do estudo, investigador do cE3c e ZSL (no Reino Unido). Embora uma erradicação de sucesso pareça ser extremamente complicada, um controle e redução da população deste sapo invasor terá igualmente efeitos positivos para as comunidades humanas. "Várias espécies de serpentes podem predar sobre este animal acabando por morrer intoxicadas. As mesmas têm um papel crucial no controle de ratos que por si só são um enorme problema económico e de saúde pública em Madagáscar", esclarece o investigador.

Mais de 90% das espécies que vivem em Madagáscar, entre animais e plantas, não podem ser encontradas em qualquer outro local do mundo. Para os anfíbios, este valor está nos 100% entre as espécies nativas. Os investigadores alertam para um desastre ambiental iminente, caso a propagação desta espécie invasora não seja travada. “Existe o receio de que a história australiana se repita. Neste caso foi a introdução do sapo-da-cana (Rhinella marina), uma espécie próxima deste sapo asiático, usada para controlo de pestes agrícolas, tornando-se uma ameaça séria à fauna nativa. As fêmeas, tal como as do sapo-comum-asiático, podem por mais de 20 ou 30 mil ovos, acabando por encontrar poucas barreiras à sua dispersão pelo país”, alerta Gonçalo M. Rosa.

Na fotografia: Sapo-comum-asiático (Duttaphrynus melanostictus).

 

Press coverage: [Wilder], [Elvasnews], [Notícias do Nordeste], [Diário de Notícias].

E também: [Notícias de Gouveia].

Referência do artigo:

Vences M., Brown J.L., Lathrop A., Rosa G.M., et al. (2017). Tracing a toad invasion: lack of mitochondrial DNA variation, haplotype origins, and potential distribution of introduced Duttaphrynus melanostictus in Madagascar. Amphibia-Reptilia 38(2): 197-207. http://booksandjournals.brillonline.com/content/journals/10.1163/15685381-00003104


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