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Distribuição do texugo na Escócia exemplifica a complexidade das respostas ecológicas a alterações ambientais induzidas pelo Homem

2/05/2017. Texto de Marta Daniela Santos. Fotografia por Kerry Kilshaw/WildCRU.

Novo estudo demonstra como as preferências climáticas do texugo-europeu (Meles meles) no Norte da Escócia são acompanhadas por variações dependentes do contexto no seu padrão de utilização do habitat face à presença Humana. Os resultados vêm reforçar que a resposta ecológica das espécies a alterações ambientais de origem antrópica é complexa, alertando para a necessidade de considerar efeitos interativos aquando do planeamento, gestão e conservação das espécies.

Várias espécies estão cada vez mais expostas a novas condições ambientais, em consequência das alterações ambientais potenciadas pela ação humana. Perceber como estes diversos agentes condicionam simultaneamente a dinâmica e distribuição das espécies selvagens é dos grandes desafios para a conservação. Tal conhecimento é particularmente importante nos limites de distribuição geográfica, onde as espécies existem em densidades populacionais tendencialmente mais baixas e estão expostas a variações mais acentuadas no seu nicho bio-climático. É o caso por exemplo do texugo-europeu (Meles meles), foco deste trabalho, cuja distribuição e abundância é muito mais esparsa na Escócia do que mais a Sul, na Irlanda e Reino Unido. Além disso, sabe-se comparativamente muito menos sobre as preferências ambientais desta espécie na sua distribuição mais a Norte.

Este estudo foi liderado pelos investigadores cE3c André Silva e Gonçalo Curveira-Santos, numa colaboração com a WildCRU (Univ. Oxford, Reino Unido) e as Universidades de Uppsala (Suécia) e de Aveiro. Entre outubro de 2010 e março de 2013, os investigadores recorreram a 168 estações de armadilhagem fotográfica acionadas automaticamente, distribuídas por cerca de 50 000km2 das Terras Altas da Escócia, para recolher informação referente à deteção do texugo durante o período de Outono-Inverno.

Os resultados demonstram que nesta região a presença dos texugos-europeus é, no geral, mais provável em áreas com temperaturas mínimas mais quentes e a menor altitude. No entanto, a forma como esta espécie responde aos efeitos da ação humana difere consoante o contexto climático. Em áreas mais favoráveis – ou seja, com temperatura mais elevada e menor altitude – os texugos evitaram áreas com maior perturbação humana, como povoações e estradas. No entanto os texugos foram também fotografados em condições ambientais mais desfavoráveis – com temperatura mais baixa e a maior altitude -, estando nesses casos a sua presença associada à disponibilidade de agricultura, provavelmente por esta representar outra possível fonte de alimentação.

Dado que as previsões climáticas apontam para um aumento da temperatura entre 1-3ºC no norte da Escócia até 2050, numa primeira abordagem esperar-se-ia que este aumento de temperatura favorecesse a presença desta espécie. No entanto, prevê-se também um aumento de 5% da população até 2037, com o consequente aumento da rede viária, o que pode contrariar o efeito positivo do aumento de temperatura na população de texugo-europeu.

Estes resultados reforçam o facto de que a resposta ecológica das espécies a alterações ambientais induzidas pelo Homem é complexa e depende da interação entre os efeitos de diversos fatores , o que pode tornar irrealistas as predições baseadas apenas na vulnerabilidade das espécies às alterações climáticas.

 

Referência do artigo:

Silva, A.P., Curveira-Santos, G., Kilshaw, K., Newman, C., Macdonald, D.W., Simões, L.G., & Rosalino, L.M. (2017). Climate and anthropogenic factors determine site occupancy in Scotland's Northern-range badger population: implications of context-dependent responses under environmental change. Diversity and Distributions.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ddi.12564/full


Tags: EG CE

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