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À descoberta da flora de São Tomé e Príncipe: César Garcia em entrevista

27/01/2017. Entrevista por Marta Daniela Santos.

Dezoito dias. Foi quanto durou a mais recente expedição botânica de César Garcia, investigador do cE3c e do MUHNAC (Museu Nacional de História Natural e da Ciência), a São Tomé e Príncipe, a convite da Academia de Ciências da Califórnia. O objectivo? Estudar e recolher espécimes de briófitos - pequenas plantas terrestres, muito antigas, quase como florestas em miniatura. O estudo destas plantas permite não só conhecer a biodiversidade dos habitats em que se encontram, como avaliar o seu estado de conservação.

Autor de duas espécies novas para a ciência, Zygodon catarinoi e Dendroceros paivae, já desde os anos 90 que o investigador desenvolve estudos em ecologia e se dedica ao estudo dos briófitos, ainda enquanto aluno de licenciatura na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Nesta entrevista César Garcia fala sobre esta que foi a sua terceira expedição a São Tomé e Príncipe. Desde os detalhes práticos (como conciliar o transporte do material com o limite de peso que se pode levar num avião?) ao muito que há ainda a fazer nesta área.

 

Passou parte do mês de novembro em São Tomé e Príncipe numa expedição botânica. Qual foi o objetivo desta expedição?

O principal objetivo foi a colheita de espécimes de briófitos - plantas terrestres, muito antigas e mal conhecidas em algumas partes do mundo, nomeadamente em África. Passaram vários colectores pelas ilhas ao longo dos anos; [o Jardim Botânico de] Coimbra tem um excelente herbário de briófitos de São Tomé e Príncipe que já foi revisto pela nossa equipa.

A ideia foi ir aos mesmos locais de colheitas antigas - o que muitas vezes é uma surpresa, porque o local antigo já não existe ou está totalmente diferente - e ir também a novos locais, em que não há ainda registo de colheitas.

 

Espécime Tipo de Trichosteleum dicranelloides Broth. Colhido na Roça Trás-os-Montes, nos troncos, a 900 metros, em Abril de 1889. Espécime do Herbário da Universidade de Coimbra (COI). Além de São Tomé, esta espécie é apenas conhecida hoje em dia na Libéria.

 

O que é que podem concluir ao comparar as colheitas anteriores com estas?

Para já, permite-nos saber se as populações estão em bom estado de conservação, se existem ou não muitas colónias. Permite-nos também conhecer melhor a ecologia da espécie. Se a espécie está sobre árvores - que árvores são essas? Se está sobre rochas, sobre o solo, em meio aquático... Se forma esporos ou se está só a reproduzir-se assexuadamente...

Lembro-me de ter lido que os briófitos são também bons indicadores do estado de conservação dos habitats.

Sim. Há espécies muito sensíveis, outras medianamente sensíveis e outras muito tolerantes. Isto acontece porque este grupo de plantas - as primeiras que colonizaram o meio terrestre - desenvolveram ao longo de milhões de anos diferentes estratégias que lhes permitiram adaptar-se a condições ambientais muito distintas.

Se nós formos aqui à Avenida da Liberdade, em Lisboa, sabemos que existe uma espécie que domina, Orthotrichum diaphanum, porque é uma espécie tolerante à poluição atmosférica. Ao sabermos quais são as espécies mais tolerantes e mais sensíveis, podemos conhecer por exemplo a qualidade do ar de uma cidade. E quem diz ar, diz água: podemos saber se um rio está poluído ou não pelas espécies que nele existem ou desapareceram.

Por exemplo: sabemos que a qualidade do ar que existe em Lisboa se deteriorou, porque temos uma espécie em herbário colhida nesta cidade no século XIX que apresenta frutificações - ou seja, formou esporos - e esta espécie só frutifica em sítios com boas condições ambientais.

Ou seja, podemos olhar para os briófitos como semáforos, ou sinalizadores?

Exactamente. São sensores da natureza ou bio-indicadores por excelência: indicam o estado de conservação de um habitat.

E também fizeram esta análise em São Tomé e Príncipe?

Exacto. Tentámos saber se existem populações que estão em pior estado, e depois descobrir novos taxa, não só para cada ilha, como para África, e às vezes para a ciência.

Eu quase de certeza que tenho espécies novas para a ciência no Museu [de História Natural e da Ciência, MUHNAC]. Só que não é fácil chegarmos à conclusão que um determinado taxon é novo para a ciência. Temos que analisar diversos herbários, analisar a família e o género a que a planta pertence... E para muitas áreas geográficas, onde se inclui a maioria dos países do continente africano, existe muito pouca informação: a bibliografia existente para alguns grupos é nula. Então temos de ir herbário a herbário - é um trabalho muito complicado.

As ilhas de São Tomé e Príncipe são muito antigas, especialmente o Príncipe, que tem 31 milhões de anos - o dobro da idade de São Tomé. Acho que tem das maiores taxas de endemismo [espécies que se desenvolveram apenas numa região restrita] por metro quadrado do planeta, e a biodiversidade é enorme.

 

Comunidades epifilas do género Colura (Dumort.) Dumort. Lejeuneaceae Cavers próximo do Pico do Príncipe.

 

Octoblepharum albidum Hedw. Octoblepharaceae A. Eddy ex M. Menzel espécie tropical amplamente distribuída pelo arquipélago.

 

E como surgiu a oportunidade para fazer esta expedição?

O convite partiu da Academia das Ciências da Califórnia para fazermos trabalho de campo em conjunto. Eu colhi cerca de 7000 espécimes em 2007 e 2008, em duas expedições anteriores, que estão no LISU [o herbário da Universidade de Lisboa]. Muitos espécimes estão ainda em estudo, embora a grande maioria esteja já determinada até ao género. Há plantas que conseguimos determinar por nós e há outras para as quais temos de pedir ajuda - a ideia é trocarmos espécimes e trabalharmos em colaboração com outros investigadores, o que dará origem a publicações conjuntas.

Um desses investigadores foi James R. Shevock, um botânico da Academia; talvez um dos briólogos mais experientes em campo a nível global, com trabalho em todos os continentes, e homenageado com o seu nome em diversas espécies. Como trabalhamos muito à distância recebi o convite para trabalharmos em conjunto no campo e assim o fizemos, com o apoio financeiro da Academia e do cE3c, e todo o apoio necessário da equipa onde estou inserido no MUHNAC e na Faculdade de Ciências [FCUL].

 

Thomas F. Daniel., James R. Shevock, César A. Garcia

Na verdade, desde que a FCUL passou para o Campo Grande parece que se criou uma falta de comunicação: não consigo perceber porque é que muitos zoólogos e botânicos da Faculdade de Ciências não colocam espécimes no Museu! Existem especialistas de conservação de espécimes e há cada vez mais condições de preservação, por isso deviam haver mais colaborações para colocar espécimes quer no herbário quer nas colecções. Toda esta informação que é colocada em base de dados é importantíssima em termos históricos e ecológicos e em termos de estudos de clima, entre outros. São bibliotecas climáticas que se criam!

E a Academia de Ciências da Califórnia dá muita importância às colecções. Foi para mim um prazer trabalhar e aprender com eles. São pessoas que estão empenhadas, não em fazer ciência para publicar, mas sim em fazer ciência para o conhecimento. Fazem floras, monografias...que na nossa métrica "não valem nada". Fazer a monografia de um género é o auge da carreira deles, porque é preciso um conhecimento enciclopédico. Para a nossa FCT, como não tem impacto...vale zero. Um botânico que queira ser um botânico clássico, com este sistema, é muito complicado. E os botânicos fazem falta! Como faz falta um zoólogo de campo que seja colector de dados.

O que eu fiz nesta expedição foi basicamente o que fez um botânico tradicional há 100 anos: recolher espécimes e determinar a espécie destes espécimes caso consiga - porque há muitos para os quais não se consegue com a bibliografia que temos. Nos casos que não conseguimos, pedimos ajuda. Depois entra no herbário e fazemos duplicados desse espécime, que são distribuídos por diversos herbários, entre os quais o da Academia de Ciências da Califórnia, cujo botânico consegue incorporar em cada mês mais de mil espécimes. Um herbário assim tem muito futuro, em poucos anos torna-se num dos principais herbários mundiais.

Depois, claro, tudo é colocado na Internet, especialmente cada espécime-tipo - o espécime que serviu de base à descrição de uma espécie nova com a indicação da localidade-tipo: a localidade que serviu para a descrição daquela espécie. Muitas vezes as espécies só são conhecidas na localidade-tipo.

 

Colheita de espécimes. Créditos das imagens: Andrew Stanbridge e C.A. Garcia.

 

São restritas àquela zona?

Pode acontecer isso - serem restritas por não haver condições ambientais para a espécie existir noutros locais. Mas muitas vezes é falta de conhecimento.

A Zygodon catarinoi [nova espécie de planta descoberta por César Garcia em Barrancos em 2004], por exemplo, não está restrita à localidade-tipo. Assim que saiu o artigo, os botânicos começaram a dar atenção a uma determinada característica morfológica, e a partir daí a espécie foi descoberta em Creta, Chipre, e com elevada probabilidade de ser encontrada em vários outros países da bacia do Mediterrâneo. Porquê? Porque é uma espécie em que as folhas têm umas papilas enormes que servem para preservar a água - uma estratégia que a planta tem para resistir à secura. Eu tive a sorte de a encontrar no local em que consegui perceber pelo aspecto que algo se passava naquela planta - era mais brilhante que as outras.

Pelo contrário, da Dendroceros paivae - que foi descoberta muito próximo da antiga Roça Trás-os-Montes em São Tomé - só há registo na localidade-tipo. É uma espécie que já considero como rara, pois apesar de intensa procura em novos locais, em São Tomé e agora no Príncipe, não voltou a ser encontrada.

Voltando a esta expedição mais recente a São Tomé e Príncipe. Disse que foram a locais de difícil acesso: como se desenrolava o trabalho?

A selecção dos locais foi feita com base em informação que já tínhamos. Tivemos uma maior incidência na Ilha do Príncipe porque eram locais que não conhecíamos; eu só tinha lá estado uma semana e sem tenda, porque só podíamos levar 15kg no avião. Este ano esforçámo-nos a levar tenda e a conseguir levar equipamento de acordo com aquilo que podíamos levar no avião.

A logística foi complicada para preparar os espécimes. Quando eu estive anteriormente no Príncipe enviei os espécimes por correio e foi muito complicado. A secagem das plantas não foi a mais correcta, porque não tinha jornais e não consegui numa semana secá-las convenientemente - algumas chegaram cá com fungos, pois foram de barco do Príncipe para São Tomé e daí de avião para Portugal, demorando várias semanas, com paragem na alfândega - sem eu ter sido avisado. Nesta expedição tentei trazer os espécimes comigo, e secos, mas havia o problema do peso. Tive de deixar lá a tenda, equipamento e roupa, para conseguir trazer os espécimes. Mas no final correu tudo bem.

 

Pico Mesa. Ilha do Príncipe. https://goo.gl/maps/vNmywUFrxjv

 

Comunidade florestal do Pico Mesa.

As condições de trabalho eram excelentes, nunca tive estas condições nas expedições anteriores. Tínhamos uma equipa, até um fotógrafo profissional, barco, jipe, e instalações com ar condicionado para secar as plantas. Nas saídas para o campo éramos colocados por terra ou mar no sítio mais próximo possível ao local que queríamos estudar.

Por exemplo, fomos ao Pico Mesa: um local lindíssimo, numa floresta bastante preservada da ilha. Fomos de barco: deixaram-nos na praia mais próxima e depois subimos. Contratámos carregadores, um guia excelente que conhecia os trilhos, e lá fomos ao local. Íamos colhendo pelo caminho, sempre com o GPS, para ficar com as coordenadas e a altitude correcta. Depois acampávamos; geralmente eram 2 dias, no outro dia regressávamos. Agora vamos analisar estes espécimes, tal como tenho outros mais antigos das outras expedições que ainda estão em análise.

 

Créditos da imagem: Andrew Stanbridge 

 


Ostelino Conceição Rocha (Balú), César A. Garcia, James R. Shevock e Júlio da Conceição Rocha 

 

E envolvem a comunidade local de alguma forma, à medida que os resultados das expedições vão surgindo?

Sim. As minhas primeiras duas expedições foram com o apoio das autoridades locais, e na mais recente a Academia de Ciências da Califórnia tinha autorização do próprio Governo [de São Tomé e Príncipe] e apoio dos Departamentos de Ambiente.

O ideal seria São Tomé e Príncipe ter um herbário com as suas colecções biológicas, mas isso ainda não é possível porque ainda não têm condições de conservação mínimas. Apesar de terem um herbário, não está neste momento em muito boas condições porque está a uma altitude elevada, tem muita humidade...e para preservar uma colecção durante muitos anos é preciso ter as condições adequadas.

Agora estão a pensar construir um local adequado na capital e aí sim, já terá condições e já podemos enviar duplicados dos espécimes. Fica um registo no próprio país, o que é muito importante.

 

Acampamento no sopé do Pico do Príncipe.

E quais são as expectativas de regressar, em próximas expedições? Quais vão ser os próximos passos?

Os próximos passos agora são separar as plantas por género e por famílias, e chegar à identificação da espécie - o que não é fácil para alguns grupos, mas é um desafio. Depois vamos enviar material selecionado para diversos especialistas e contribuir para o conhecimento da flora de um modo geral. Já fizemos o levantamento de todas as espécies existentes no arquipélago e preparámos a base de dados, com as colheitas antigas e com as novas. Assim temos um controlo das espécies que existem, quando foram encontradas e em que local.

O regresso ainda não está planeado, pois fiquei satisfeito com o trabalho de campo realizado no Príncipe. Talvez regresse a alguns locais em São Tomé pelos quais tenho muita curiosidade, mas são de tão difícil acesso que temos de encontrar guias com conhecimento de campo nessa área. Mas gostava de facto de regressar, de preferência integrado num projeto com uma equipa pluridisciplinar.

Com o material que temos já podemos fazer vários tipos de estudos. Fazer análises, estudar como é a planta em termos biogeográficos no planeta.. Isto funciona como uma rede de conhecimento: há um indivíduo que vai ao campo - que neste caso sou eu - que classifica. E depois há outras pessoas que fazem outro tipo de estudos, com outras ferramentas. Pode-se estudar como é que a planta divergiu em termos da evolução, onde é que está o centro de dispersão daquele género, onde é que a planta evoluiu... Há um conjunto de perguntas que depois podemos fazer com toda esta informação. Mas a base é sempre a espécie.

E por vezes é muito complicado fazer o tipo de investigação que eu faço, porque não há financiamento nem é muito reconhecido nos dias de hoje. Mas não é só cá em Portugal, é geral - com exceção de alguns países. Um investigador que faça uma Flora - que é o auge da carreira de qualquer botânico - não é reconhecido porque não tem impacto. E o próprio impacto é um indicador de mérito caricato: são empresas privadas que detêm as revistas e que controlam aquilo que se publica pela comunidade científica. Isto daria vontade de rir, se não fosse verdade.

Felizmente quer o nosso governo quer a União Europeia já estão a ir por um caminho diferente: começam a perceber que as assinaturas das revistas são caríssimas, para investigação que é feita com dinheiros públicos.

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