News

ALL NEWS

Projeto de biodiversidade nos Açores fornece dados detalhados sobre a abundância de 286 espécies de artrópodes

8/01/2017. Texto por Marta Daniela Santos com base em comunicado de imprensa.

Foi agora publicada na revista Biodiversity Data Journal a lista completa das 286 espécies de artrópodes identificadas nos projectos de biodiversidade dos Açores BALA I (1999-2004) e BALA II (2010-2011). Nestes projectos participaram vários investigadores cE3c, bem como investigadores das Universidades de Atenas e Oxford. Os resultados sublinham a necessidade de alargar as abordagens aplicadas a outros habitats dos Açores e a outros grupos taxonómicos menos estudados.

Entre 1999 e 2004 teve lugar o projeto BALA I - Biodiversidade dos Artrópodes da Laurissilva nos Açores, impulsionado por investigadores do Grupo de Biodiversidade dos Açores (GBA). Tratou-se de um projeto de biodiversidade a longo prazo com o objetivo de obter dados detalhados sobre a distribuição e abundância de uma fracção significativa da fauna de artrópodes que vivem nas florestas nativas - Laurissilva - remanescentes em sete das nove ilhas dos Açores (na Graciosa e no Corvo já não existe floresta nativa). Ao longo desses cinco anos foram realizadas amostragens em 100 locais de 18 fragmentos de floresta nativa.

Mais recentemente, entre 2010 e 2011, este projecto foi alargado por investigadores do Grupo de Biodiversidade dos Açores e das Universidades de Atenas e Oxford: o BALA II permitiu uma segunda amostragem de dois locais por cada um dos 18 fragmentos de floresta nativa já seleccionados no BALA I.

O artigo agora publicado no Biodiversity Data Journal reune a lista completa das 286 espécies para as quais foi possível ter uma identificação correcta, incluindo 18 espécies descritas como novas para a ciência. Entre estas destacam-se 11 espécies de aranhas, três delas especializadas em viver nas copas das árvores endémicas dos Açores. Entre as restantes nove espécies novas para a ciência destacam-se espécies muito raras, especializadas em viver nos ambientes muito húmidos do solo dos Açores, onde os danos provocados por plantas invasoras torna a sua conservação um desafio importante para as próximas décadas (+ info aqui e aqui). Neste estudo, coordenado pelo investigador cE3c Paulo Borges, os investigadores acrescentaram também informações detalhadas sobre a distribuição e abundância destas espécies.

A base de dados que resultou destes dois projetos inspirou a publicação de muitos estudos nos últimos dez anos, incluindo estudos macro-ecológicos que avaliam a abundância, variância espacial e distribuição das espécies de artrópodes, os efeitos da perturbação e integridade biótica das florestas nativas e a fiabilidade dos estimadores de riqueza de espécies. Estes dados permitiram igualmente o estabelecimento de prioridades de conservação para as espécies de artrópodes endémicas dos Açores e permitiram estimar uma previsão de extinção para vários grupos de artrópodes (dívida de extinção*). O presente estudo inspirou também o desenvolvimento do Portal da Biodiversidade dos Açores e do ISLANDLAB (repositório sobre dados de projectos de biodiversidade nos Açores e Madeira).

Estes resultados sublinham a necessidade de alargar as abordagens aplicadas nestes projetos a outros habitats dos Açores e, mais importante, a outros grupos taxonómicos menos estudados (por exemplo, as moscas - Diptera e as vespas - Hymenoptera).

"Estes passos são fundamentais para uma avaliação mais precisa da biodiversidade no arquipélago dos Açores, e esperamos que possa inspirar inventários de biodiversidade semelhantes noutras ilhas", afirmam os autores.

 

*’Dívida de extinção’ significa que existe um conjunto de espécies que se vai extinguir no futuro devido a acontecimentos do passado, e ocorre porque existe um atraso entre a ocorrência de um acontecimento de perturbação (por exemplo, diminuição de área de floresta) e o seu impacto numa espécie.

 

Na imagem: Leiobunum blackwalli. Fotografia de Paulo Borges.

 

Referência completa do artigo:

Borges, P.A.V., Gaspar, C., Crespo, L., Rigal, F., Cardoso, P., Pereira, F., Rego, C., Amorim, I.R., Melo, C., Aguiar, C., André, G., Mendonça, E., Ribeiro, S.P., Hortal, J., Santos, A.M., Barcelos, L., Enghoff, H., Mahnert, V., Pita, M.T., Ribes, J., Baz, A., Sousa, A.B., Vieira, V., Wunderlich, J., Parmakelis, A., Whittaker, R.A., Quartau, J.A.Serrano, A.R.M. & Triantis, K.A. (2016). New records and detailed distribution and abundance of selected arthropod species collected between 1999 and 2011 in Azorean native forests. Biodiversity Data Journal. 4, e10948. DOI:10.3897/BDJ.4.e10948. 


Tags: IBBC CE ESFE Cobig2

Other Articles

  • Ondas de calor podem alterar os impactos do lagostim-vermelho-da-Louisiana, uma das piores espécies invasoras em Portugal

    Paper Ondas de calor podem alterar os impactos do lagostim-vermelho-da-Louisiana, uma das piores espécies invasoras em Portugal

  • Heat waves can change the impacts of the red swamp crayfish, one of the world’s worst invasive species

    Paper Heat waves can change the impacts of the red swamp crayfish, one of the world’s worst invasive species

  • Estudar a distribuição geográfica dos cetáceos: é tudo uma questão de escala

    Paper Estudar a distribuição geográfica dos cetáceos: é tudo uma questão de escala

  • Novo estudo reconstrói a evolução das flores ao longo dos últimos 140 milhões de anos

    Paper Novo estudo reconstrói a evolução das flores ao longo dos últimos 140 milhões de anos

  • O sexo importa? Para os morcegos, sim

    Paper O sexo importa? Para os morcegos, sim