News

ALL NEWS

Estudo sobre dinâmica reprodutora do bordalo confirma a existência de uma significativa seleção sexual por parte das fêmeas

15/06/2016. Texto por Marta Daniela Santos.

Num estudo agora publicado na revista Proceedings of the Royal Society B (*), uma equipa de investigadores do cE3c (Universidade de Lisboa) tornou mais clara a dinâmica reprodutora de um peixe com características genéticas especiais: o bordalo.

Nos rios de norte a sul de Portugal vive um peixe com características genéticas muito interessantes para a ciência: o bordalo (Squalius alburnoides). Enquanto todos os seres humanos têm duas cópias de cada cromossoma (são diplóides), os bordalos constituem um complexo que engloba diferentes tipos de machos e de fêmeas com diferentes números de cópias de cromossomas – ou seja, com diferentes níveis de ploidia. Existem bordalos com duas cópias de cada cromossoma, com três cópias, ou mesmo com quatro cópias. Além disso, o bordalo resultou da hibridização entre duas espécies distintas: Squalius pyrenaicus do lado materno e uma espécie próxima de Anaecypris hispanica do lado paterno. Assim, quando falamos do genoma do bordalo utilizamos a letra P para indicar o genoma que teve origem materna (Squalius pyrenaicus) e a letra A para indicar o genoma que teve origem paterna (Anaecypris hispanica). As fêmeas de bordalo mais comuns nas populações naturais são triploides (genoma PAA), mas de uma forma geral as populações variam muito na sua composição genética e apresentam uma intrincada dinâmica reprodutora que só agora começamos a compreender.

No laborioso estudo agora publicado, os investigadores pretenderam demonstrar empiricamente qual a estratégia e o êxito dos cruzamentos que envolvem estas fêmeas triploides e vários tipos de machos. Para isso recorreram a cruzamentos livres e direcionados, usaram marcadores genéticos de paternidade e compararam as taxas de fecundidade, de fertilização e de sobrevivência dos descendentes em cruzamentos distintos.

O estudo demonstrou que a descendência que resulta de cruzamentos livres é bastante diferente daquilo que seria de esperar se os cruzamentos fossem aleatórios, e que existe elevada variabilidade na descendência produzida em diferentes cruzamentos direcionais. Globalmente, os resultados revelaram que as fêmeas triploides selecionam os machos de forma a assegurar a manutenção do seu genoma na geração seguinte.

Os resultados publicados contribuem, ainda, para a compreensão da dinâmica de complexos híbridos de vertebrados, e para reforçar o potencial evolutivo da hibridação e da multiplicação dos genomas nos animais. Pelo facto de apresentarem uma multiplicidade de estratégias de reprodução, estes complexos híbridos constituem sistemas totalmente abertos à formação de novas espécies em ambientes instáveis como é típico dos habitats aquáticos continentais

O trabalho foi realizado no âmbito do projeto de doutoramento de Miguel Morgado Santos, primeiro autor do artigo. São também co-autores Sara Carona, Maria Filomena Magalhães e Maria João Collares-Pereira (do cE3c) e Luís Vicente (do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa).

(*) Morgado-Santos, M., Carona, S., Magalhães, M.F., Vicente, L. & Collares-Pereira, M.J. (2016) Reproductive dynamics shapes genomotype composition in an allopolyploid complex. Proceedings of The Royal Society B-Biological Sciences, 283: 20153009. http://dx.doi.org/10.1098/rspb.2015.3009

 

Fotografia original da autoria de Isabel Catalão.


Tags: EG CE

Other Articles

  • Alterações climáticas: segundo alerta da comunidade científica à humanidade

    Paper Alterações climáticas: segundo alerta da comunidade científica à humanidade

  • Machos e fêmeas de morcego respondem de forma diferente à modificação do seu habitat? Estudo é capa da revista Biotropica

    Paper Machos e fêmeas de morcego respondem de forma diferente à modificação do seu habitat? Estudo é capa da revista Biotropica

  • Morcegos, vírus e uma cultura de medo: a receita para o desastre?

    Paper Morcegos, vírus e uma cultura de medo: a receita para o desastre?

  • Bats, virus and a culture of fear: recipe for disaster?

    Paper Bats, virus and a culture of fear: recipe for disaster?

  • Humanos pré-históricos já formavam grupos que viviam redes sociais complexas há 34 000 anos

    Paper Humanos pré-históricos já formavam grupos que viviam em redes sociais complexas há 34 mil anos