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Best Poster Award 2019: Entrevista a Maria João Verdasca

7/08/2019. Entrevista por Marta Daniela Santos.

É com Maria João Verdasca, estudante de doutoramento no cE3c, que damos início a um conjunto de entrevistas semanais com os investigadores que receberam distinções na 5ª edição do Encontro Anual do cE3c, que se realizou nos dias 1 e 2 de julho de 2019 no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC)!

Maria João Verdasca (CSES-cE3c) foi distinguida com o Best Poster Award, como primeira autora do poster “Niche shifts of an invasive predator of native bees: contrasting patterns from the two European invasion fronts”. Este prémio é atribuído por votação de todos os participantes do Encontro Anual do cE3c. Iniciou em 2017 o seu doutoramento, no âmbito do Programa Doutoral em Biodiversidade, Genética e Evolução (BIODIV), inserida no grupo ‘Conservation in Socio-Ecological Systems - CSES’ do cE3c. No seu projeto de doutoramento, está a estudar quais os principais impulsionadores da invasão por vespa asiática (Vespa velutina) em Portugal, de forma a prever o risco e o potencial de expansão. É uma das duas nomeadas por Portugal para o Prémio Jovens Investigadores 2019 atribuído pelo GBIF (Global Biodiversity Information Facility) (como noticiámos aqui), cujos vencedores internacionais serão anunciados antes da 26ª Assembleia Geral do GBIF, que terá lugar na Holanda, em outubro deste ano.

 

No que consiste o trabalho que apresentaste no Encontro Anual?

No Encontro Anual do cE3c apresentei os resultados de uma parte do meu doutoramento em que estou a estudar a dinâmica da invasão da vespa asiática (Vespa velutina) na Europa. Mais concretamente com a comunicação que fiz pretendi responder a duas questões: avaliar se o nicho ecológico da espécie mudou durante o processo de invasão, e identificar quais as regiões na Europa que se encontram mais vulneráveis à expansão da vespa.

Fazendo primeiro um pequeno enquadramento, a vespa velutina, uma voraz predadora da abelha do mel e de outros insetos polinizadores, é uma espécie nativa do sudeste asiático que foi introduzida em França em 2004. Desde então esta invasora tem vindo a expandir-se por vários países europeus entre os quais Portugal onde chegou em 2011, sendo recentemente considerada pela União Europeia como uma espécie preocupante e que requer medidas para mitigar os seus impactos. Para a implementação de um plano de controlo adequado e dado o impacto negativo desta espécie na biodiversidade nativa, nos serviços de ecossistemas, na saúde pública e na economia (danos na atividade apícola e agrícola), torna-se necessário compreender a sua dinâmica de invasão.

Quanto aos resultados e muito resumidamente, demonstrei que a vespa asiática tem uma grande capacidade de se adaptar a diferentes envelopes climáticos e que há ainda uma grande extensão de área na Europa por ser ocupada, que tem condições ambientais semelhantes às que a vespa usa na sua área de distribuição nativa. Como tal, não se prevê um desacelerar do processo de invasão e dos seus consequentes impactos ambientais.

Quais são os principais desafios neste trabalho? Alguma história em particular que queiras partilhar?

Sendo o tema que estou a estudar uma questão com um algum impacto social, e que pode juntar numa mesma mesa dirigentes municipais, apicultores, agricultores, investigadores, órgãos governamentais, para mim o principal desafio enquanto cientista é mesmo conseguir passar a mensagem para os diferentes stakeholders para que possamos remar todos no mesmo sentido. Só trabalhando em conjunto será possível avançar com propostas de medidas que visem não só alterar comportamentos errados que se encontram instaurados, mas também a atuação concertada a nível nacional no sentido de se tentar travar a expansão da vespa asiática e de minimizar os seus impactos económicos e ecológicos.

Posso partilhar uma história que se passou no ano passado, em que fui convidada para a moderação de um debate sobre os impactos da vespa asiática no sector apícola e agrícola no concelho de Montemor-o-Velho. Foi um debate que eu considerei bastante enriquecedor e esclarecedor nomeadamente no que toca à utilização de pesticidas na destruição dos ninhos. De salientar que muitos dos produtos usados atualmente como “cavalos de Troia” não são homologados e são usados em quantidades excessivas sendo extremamente perigosos para o meio ambiente. No entanto, apesar de terem sido amplamente debatidas as boas práticas a utilizar no combate à vespa asiática, no final ouvi uns apicultores a conversarem entre si dizendo que iriam manter o uso desses produtos tóxicos pois eram bastante eficazes. Percebi então que a alteração de comportamentos não é algo imediato e que ainda há muito trabalho pela frente no esclarecimento da população. Este episódio deu-me uma motivação acrescida para continuar o meu caminho em prol da salvaguarda da biodiversidade e da conservação da natureza.

Porque escolheste esta área de investigação?

Desde pequena que as áreas das ciências naturais e da conservação do ambiente sempre me atraíram e foi algo que estando sempre presente acabou por moldar o meu percurso académico. O facto de ter escolhido esta área concreta de investigação vem de uma história curiosa. No ano anterior a começar o meu doutoramento avistei um ninho de vespa asiática em Viana do Castelo em casa de familiares. No dia seguinte, dirigi-me aos Bombeiros do município e reportei a ocorrência. Ao chegar apercebi-me que as largas centenas de registos de ocorrências de ninhos no concelho estavam em formato de papel e que não havia coordenação entre os diferentes municípios para o combate à vespa asiática. Tendo identificado esta lacuna e que ainda havia tanto por saber sobre a dinâmica de invasão da espécie, a sua biologia, a dieta, os seus impactos ecológicos e económicos, que ao começar o doutoramento foi um tema que surgiu com muita naturalidade e que quis agarrar e perceber melhor. Trabalhar com esta espécie invasora tem-me permitido compreender no terreno os seus impactos na sociedade, no bem-estar das populações locais e nos ecossistemas, sendo algo que me motiva pela forte aplicabilidade prática e por sentir que com o meu trabalho posso contribuir para ajudar na sua gestão e controlo.

Estás sensivelmente a meio do teu doutoramento. Que aspeto(s) destacas como mais positivo(s) até agora, neste percurso?

Sem dúvida que o mais positivo é a oportunidade de conhecer diferentes investigadores, com os quais tenho aprendido muito! A liberdade que nos é dada na escolha e estruturação do projeto da cada um, a fomentação constante que façamos pontes de investigação com outros grupos e centros de investigação e o sentido de entreajuda e de união que se vive no cE3c é algo que também prezo muito.

O que significa para ti receber esta distinção?

Foi sem dúvida muito gratificante. Fiquei muito contente! Sabe sempre bem quando vemos o nosso trabalho reconhecido pois é sinal de que conseguimos passar a mensagem a que nos propusemos, sendo um estímulo para continuar a fazer sempre mais! Tal como na recente nomeação que tive para o GBIF Young Researchers Award 2019, esta distinção representa também uma oportunidade para dar destaque a um tema atual, com um relevante impacto social. 

Completa a frase: Para mim, fazer parte do cE3c significa...

um grande orgulho e uma responsabilidade acrescida por fazer parte desta equipa de excelência. Sinto que no cE3c faço parte de algo maior e que o trabalho de cada um é importante, e isso é extremamente gratificante e motivador.  

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